Se eu quisesse “discutir” com o Prof. Doutor Elísio Macamo…

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Maputo (Canalmoz) – Numa das minhas leituras livres, dei comigo impressionado com um excerto atribuído ao pensador francês Jean-Jacques Rousseau. Dizia o seguinte: “O homem nasce livre, mas encontra-se algemado em toda a parte; quem se julga o senhor dos outros não deixa de ser tão escravo quanto eles”. Portanto, que é tão tolo aquele que acha que só os outros são tolos. Pode-se substituir o tolo por escravo ou por vendido, vai dar no mesmo.

Nas minhas leituras obrigatórias, tomei conhecimento de diversas formas de debate argumentativo. Uma delas é bem clássica. Se discordas de um argumento, primeiro apresentas a tese contrária e, imediatamente a seguir, criticas as suas premissas. Para ser uma discussão saudável, tens de ser o mais cordial e educado possível, investindo mais na polidez e substância dos teus argumentos do que na rotulação e estupidificação dos argumentos do teu oponente.

Chegou-me recentemente aos olhos, através de um amigo, um artigo do Prof. Doutor Elísio Macamo, intitulado “Os Amigos Hostis da Democracia”. Foi publicado inicialmente na página dele no Facebook, à qual não tenho mais acesso por incompatibilidades insanáveis (foi isso o que conclui, quando o Prof. Macamo irrompeu no meu “inbox” adentro, há quase meia década, a justificar a imperiosidade de me deletar das suas amizades). De um modo geral, ele diz no referido artigo que algumas das mais proeminentes organizações da sociedade civil moçambicana são “oportunistas profissionais”, “traidoras da Pátria”, “pessoas sem consciência” e “falsos políticos”, de entre outras catalogações. A fundamentação, pelo que entendi, baseia-se no facto de tais organizações, nomeadamente o Centro de Integridade Pública, o Mecanismo de Apoio à Sociedade Civil, o Observatório do Meio Rural e o Instituto de Estudos Sociais e Económicos, terem primeiro festejado a interrupção do apoio directo ao orçamento geral do Estado, por parte dos doadores externos e, segundo, por terem recentemente vindo a público reivindicar a canalização directa às organizações não-governamentais do mesmo apoio. Para o Prof. Macamo, ainda segundo o seu artigo, as organizações da sociedade civil moçambicana padecem de uma “tendência milenarista” em se outorgarem de perfeccionistas (ao exigirem integridade aos nossos políticos e se apresentarem como soluções mais acertadas para o desenvolvimento e o progresso do país), ao mesmo tempo que repetem abusivamente tudo aquilo que já se sabe (exposição e denúncia dos podres do nosso Governo) e não apresentam propositadamente as suas melhores realizações. Por último, e denunciando uma pretensa aliança conspiratória entre as nossas organizações da sociedade civil e os doadores externos contra o Estado moçambicano, acusa as primeiras de manifesta ingenuidade e de desprezo profundo pelo país. Tudo isso pode ser consultado lá no seu “post” original.

Eu não trabalho para nenhuma dessas organizações. Não serei o seu advogado. Mas posso adiantar umas dicas para quem se interessar por um eventual debate. É daí que surgiu o título do presente texto. Eu, se quisesse discutir sobre esse assunto com o meu ex-amigo Prof. Macamo, poderia incidir sobre falhas ou limitações argumentativas do seu texto, como, por exemplo, a apresentação de evidências factuais. Poderia explorar os problemas de generalização ou de ampliação desproporcional e propositada de equívocos. Poderia denunciar a priorização das idiossincrasias do autor perante os sujeitos e os objectos que arrola no seu texto. Poderia, por exemplo, desenvolver o argumento segundo o qual a mera interpretação de um fenómeno por parte do Prof. Macamo não anula, sumariamente, as demais (e diversas) interpretações (igualmente legítimas e pertinentes) das organizações visadas. Poderia denunciar aspectos, nos argumentos do articulista, que são desrespeitosos, abusivos ou exagerados, para a seriedade e responsabilidade que se exigiria de um cientista social da craveira do Prof. Macamo. Só para finalizar, eu poderia também mencionar os excessos e as incongruências dos seus argumentos, requerer a fundamentação da pertinência da crítica ou, já mesmo a terminar, criticar vigorosamente a conclusão com que o famoso Professor encerra o seu texto. Ou a desproporcionalidade entre o que ele elenca como argumentos e a floresta de retórica que os encobre.

Se eu quisesse discutir com o Prof. Doutor Elísio Macamo, eu diria que, além do facto de ser mal-educado, ele pode estar errado. A recorrência ao clichê “ao invés de denunciar, tu deves estar calado e ser mais tolerante” contribui menos para o país. Quem “ataca” o Governo não é ética ou moralmente inferior a quem o “defende”. Não precisamos todos de comungar da sua sociologia narcisista, onde só é bem-vindo aquele que seguir apenas as suas opiniões. É tecnicamente impossível termos todos o mesmo entendimento sobre as condições e os rumos actuais e futuros do país. Não há nada de errado em querer o melhor para Moçambique e obter financiamento para trabalhar nisso.

Se eu quisesse discutir com o Prof. Macamo, denunciaria o genocídio da diferença que ele visceralmente advoga. Moçambique não avançará com a eliminação dos “indesejáveis”, com a reeducação dos “traidores” ou com o extermínio dos “antipatriotas” que militam na sociedade civil. O policiamento do pensamento alternativo, a imposição do politicamente correcto ou a tirania do intelectualismo (onde se recorre permanentemente ao “status intelectual” para impingir autoridade moral de determinados argumentos sobre os argumentos das pessoas comuns) não contribui mais para o país do que o contrário.

Eu diria, se estivesse a discutir com esse Professor, que o abuso de arcaboiços retóricos atrás de capas pretensamente intelectuais exclusivamente para impossibilitar a ascensão de novas vozes ou a popularização de rebeldes incómodos, indesejáveis para a consolidação do Moçambique de orientação única que melhor alegra os olhos do Prof. Macamo, é uma tentativa de barramento da democracia moçambicana. Diria que o escrutínio, julgamento e condenação sumária desses “maus cidadãos”, ao mesmo tempo que se lhes associam a irreverência às intoxicações deliberadas do Ocidente, é um atentado às premissas mais básicas da ciência à luz da qual as intervenções públicas do ilustre Professor se celebrizaram. Não sei, honestamente, se ser um bom moçambicano (e todos os antónimos dos vis adjectivos usados pelo Prof. Elisio Macamo para catalogar os membros dessas organizações da sociedade civil moçambicana) é, invariavelmente, anular e asfixiar no silêncio todo o sentido crítico que qualquer cidadão tiver. Não sei, honestamente, se só os sipaios do regime e as colunas de som que amplificam as suas vozes é que detêm o monopólio do melhor sentido de Estado e estão mais conscientes do superior interesse nacional.

Eu aconselharia ao Prof. Macamo a curar-se dos seus recorrentes delírios de perseguição, segundo os quais há moçambicanos contaminados pelo Ocidente para destruírem o que ele acha que Moçambique deve ser. Generalizar as suas frustrações ou desilusões pessoais para com o Ocidente e a desesperada tentativa de as impor sobre os moçambicanos é um mau serviço público, senhor Professor. Sempre que algo corre mal internamente, é para si mais fácil culpar as “forças externas” e os seus agentes internos comprados por dólares ou euros por alguma razão. Trabalhe mais nisso, nas suas próximas produções científicas. Possivelmente se liberte das algemas mentais que acorrentam e relativizam o seu argumento no referido texto, tal e qual o tolo referido por Rousseau.

Se eu quisesse discutir com o Prof. Elísio Macamo, elaboraria mais sobre isto e muito mais. (Edgar Barroso)

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