A mbira, a Kathleen & eu

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Beira (Canalmoz) – À primeira vista parece um instrumento ridículo. Visto à socapa parece desmerecedor e emprestável. Mas é mágico, definitivamente misterioso e digno de ser evocado.

Faz três décadas, desvendei-o no artigo de Mário Pinto de Andrade, inserto no livro consagrado à Beira, do ARPAC, basicamente na foto do Kamba Simango, que o ilustrava, teclando-o.

Ouço a mbira neste momento. A mbira tem efeitos transcendentais. Viajo. A Kamba Simango, independentemente da reserva mental e material que se lhe apõe, tomou-o como um exímio músico. Visto naquela foto parece um cantor comum, mas Kamba era um músico encantador, que seduziu o mundo, seduziu a América e a Inglaterra, por um aparelho minúsculo do tamanho de uma palma de mão. E esse intróito apenas para compreender-se a dimensão da acústica, a dimensão dos acordes que provocam a mbira, que é definitivamente um elixir africano. Definitivamente a mbira deixa-me aborto. Leva-me pelo tempo, pelo espaço. É algo assediante este instrumento nativo, com reminiscências e ressonâncias nos antípodas do mundo. Kamba não precisara de amuletos, não precisara de verberar, pois foi com a mbira lançou o seu grito de amor a Kathleen. Kamba nos anos 20  do século passado fez das melodias e sinfonias da mbira o seu evangelho de amor materno, por Machanga e Beira.

Eu entendo o Kamba por essas qualidades e virtudes comovedoras dos cinco sentidos. Kamba era um negro, que na belle époque serviu-se da música como uma poderosa arma. Esse instrumento, que parece um dejecto material, permitiu-lhe o acesso discreto aos tapetes vermelhos, aos palácios da corte, na América, em Londres e em Portugal, permitiu-lhe o acesso aos salões dançantes, onde se intrigavam e se conspiravam os ricos, disfarçando a componente social, com negócios de café, de cacau, de seres humanos vendidos como mercadorias, feitos bestas de carga. Kamba iludia cavalheiros e apaixonava damas com esse instrumento, no teclar das suas pautas havia uma declaração de amor. Kamba anestesiava-os, para depois captar os discursos em surdina e vitupérios nas conversas de fundo, daqueles que lhe desdenhavam e a esse aparato de música indígena. Kamba podia-se aculturar, podia miscigenar, mas a sua demanda era muito superior ao comodismo, às necessidades primárias e a um estatuto social reservado pela corte. Kamba ocultava o seu potro-nacionalismo por detrás da mbira. Kamba, além de músico, era um sábio. Era um antropólogo. Enquanto ele dedilhava a sua mbira, rodeado de magnatas, damas, duquesas e princesas não se intuía. Ele desdenhava aquelas mulheres esfaimadas por um ser exótico. Kamba apenas ia penetrando por dentro daquela sociedade burguesa e decadente. Kamba amava Kathleen. Podia escorregar na casca de banana de uma travessura amorosa, mas não o suficientemente para perder o foco. Kathleen amava Kamba. Kathleen era sangue da alma de Kamba. Kamba era os vasos linfáticos de Kathleen. O pulmão de Kamba estava ligado ao de Kathleen. A melodia criada pelos dedos de Kamba era o ar que Kathleen respirava. Kamba era um xamã neste género de música. Kathleen não conseguia viver, senão ao som e ao tom áspero, delicado e harmónico, manuseados pelo dedilhar daquele maestro. O instrumento era desconhecido daquele mundo ocidental altivo, soberbo e altruísta. Kamba podia ter tocado violoncelo, violino, gaita-de-beiços, mas como bom mágico, Kamba esmerou-se, esmerou-se tanto, que se sentiu certo e seguro do seu talento. Não eram os magnatas nem as damas luxuriantes, que estavam na mó de cima, que o haveriam de convertê-lo. Eles é que teriam ir ao encontro do seu canto, à destreza dos seus sons. Eles é que se deveriam submeter ao desconhecido, subindo até à sua pressuposta torre de marfim.

Falo da mbira. Falo dos seus efeitos alucinantes e cataclísmicos. Falo da África. Da negritude. Falo da persistência. Falo do Kamba, como poderia falar do John, um jovem a quem a vi tocar no Café Book Shop de Harare, que me pareceu um mago na arte de tocar mbira. Naquela noite em Harare, no sono, vi-me a demorar no elixir dos atributos dos zimbabweanos, reincidentes nesta fonte primigénia de música. Na mbira, cujo som me inebria, cabe agora o Daviz Mazembe, a quem pela primeira vez vi, ao vivo, manejar as teclas metálicas deste aparelho excêntrico e potencialmente mais sedutor que o canto mavioso das sereias. Podia falar do Walter, do Djaka, a quem vi iniciar a carreira promissora – penosamente encurtada pela tragédia –, num sábado, ano 2000, no Auditório Galeria e Arte da Beira, vulgo Casa da Cultura, o Walter, dizia, com a sua sabedoria, resgatara o trilho, recuperando a mbira, a morte tirou-o do mundo e de uma fulgurante carreira. Está aí, no primeiro álbum do Djaka. É anestesiante como ele efabula os ritmos que vão ao encontro dos deuses e duendes. Dos meus ancestrais e bisavós, que parecem comunicar-se teológica e extensivamente comigo.

Revisitando o álbum a solo do Walter confirma-se. Quantas vezes esses álbuns me acompanharam na escrita dos meus livros e artigos, até que um melomaníaco simplesmente desfalecido com o talento e a melodia mos palmou! Quantas vezes, a ouvir Habib Kointé, na Filarmónica de Colónia, acreditei, que aos rapazes do Djaka só lhes faltou um de sopro de sorte, não de magia que já o tinham, para se consagrarem no mundo do show biz.

Por certo, devo também confessar, se eu não fora escritor, conformava-me com o ser instrumentista de mbira. Tomava a minha mbira. Tomava a minha Kathleen. Seguia o encalço do Kamba, pelo Gana, pela África, pelo mundo. Ou propriamente seguiria a Kathleen transcendida em mbira, como o fez Kamba, perdendo-se aí além, pelo mundo afora, porque Deus, Pátria e património, além de aprisioná-lo, deram-lhe problemas, que lhe forçaram o exílio. Antes senão preferia ter a minha mbira, seguir por ali, tocá-la na mesma sintonia mágica com que Gauguin encantou o mundo revelando as musas taitianas. Tomara! Tomara! Tomara correr os ponteiros do relógio para trás e regressar a Harare! E jamais precisaria nomear as coisas pelos nomes. À minha imaginária Kathleen eu lhe diria tão sonoramente, tão sossegadamente, tão romanticamente, que a amo, investindo nos teclados de uma minha imaginária mbira, que a teclo no ar. Saber-lhe-ia muito bem e pela ponta do ouvido! (Adelino Timóteo)

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