Maldito sistema

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Beira (Canalmoz) – Nestes dias o país está sem sistema. Raro, um país que sempre esteve debaixo de sistemas, de repente vê-se sem sistema.

Primeiro foi o sistema colonial. O sistema colonial arrancou tudo. Arrasou com a nossa mão-de-obra, levando-a para as antilhas e ilhas do Índico. Para as américas. O sistema colonial empobreceu-nos. O povo sonhou com um novo sistema, diferentemente do sistema que nos oprimiu. Quando pensávamos que nos libertávamos dele, seguiu-se-lhe um outro sistema colonial. Na mesma atroz. Sistema de aldeias comunais, sistema de orientação socialista. No sistema de orientação socialista o Estado era uma comédia. Quando o sistema oferecia-nos o arroz, de certeza que o sistema não podia proporcionar o caril. O sistema trouxe-nos a fome. E porque esta era forte ofereceu-nos todo o tipo de experimentações. O sistema ensinou-nos a comer peixe sem cabeça, que se convencionou chamar-se Pedro Ben. O sistema ensinou-nos a comer repolho o ano todo. O sistema fez todo o tipo de experiência connosco. Ensinou-nos a comer farinha de milho amarela, que se dá aos porcos e bois, nas américas e nas europas. O sistema transformou-nos em cobaias das suas experiências colectivistas.

O sistema deixou falir as pasmaceiras de Lenine, Marx e Engeles. Deixamo-nos de viver um mês com um quilo de açúcar.  Um mês com meio litro de óleo. O sistema introduziu a perestroika e deixamo-nos todos andar uniformizados em roupas e calçados. O sistema ensinou-nos a servimo-nos de um calçado para cinco membros da família. Mulheres serviram-se de calçados masculinos e vice-versa. Era tudo uninex.

O sistema ensinou-nos a adaptar-nos às condições e às nossas insuficiências. O sistema foi um mestre, que ensinou-nos a  seguir orientações. Fabricamos sabão com tronco de papaeira. O sistema ensinou-nos a adoçarmos o chá com rebuçados, a comermos o tseke. O sistema ensinou-nos a comer ovos em pó, para cobrirmos o défice da produção nacional.

O sistema pôs-nos a dançar a nossa música. Àquele que não dançasse marrabenta, o chingomana, o chingwere, tsungura, se lhe rotulava alienado, mas o sistema alienou-nos tornando-nos sua propriedade. O sistema sujeitou-nos a dançarmos, em suas tarefas e orientações de auto-defesa. O sistema ensinou-nos a sermos milicianos. A fazermos o chote-culia -a marchar.

O sistema não só capturou o Estado, como a nós.  Depois de capturar-nos põem-nos a dançar em todo o lado. Põe a sua música e dançamos. Se não dançássemos a xibaleza do sistema, dançávamos no des emprego, dançamos na exclusão social. O que se passa, com salários magros, vivemos todos de créditos. Crédito de tomate, cebola, carna da suazi, mas os donos do sistema lá estão a viver à grande e à francesa, surgem com toda pompa e circunstância a simular que tudo vai bem connosco.  Pois tudo vai bem connosco, porque o sistema já não tem mais liberalidades nem atrocidade a que nos sujeitar.

O novo sistema trouxe os mesmos vícios do defunto sistema. Transformou Niassa em São Tomé.

E como se não bastasse, para divertir-se com o povo, o sistema foi trazer a internet, que depois de tanta facilidade resolveu oferecer-nos infelicidade. O sistema sabe ser sádico quando quer. E o normal, sabendo que somos vulneráveis, vivemos debaixo da capa de chuva deles, o sistema passou a manipular-nos.

A única forma de evasão da realidade em que agora nos encontramos é assumirmos que o sistema está de férias, ou fugiu. Já era tempo. Ironicamente, tinha que faltar o sistema para nos libertar das conglomerações à boca das ATM’s. Tinha que faltar o sistema na rede das ATM’s para vermos que sem sistema passamos um momento de caos, mas sobrevivemos sem ele, porque logo nos acostumamos. Que podemos obstar-nos desse sistema que nos oprime, humilha-nos e aniquila-nos, faz quarenta e três anos. E o sistema desencantou mais essa forma de sujeitar-nos à sua experiência, à sua subordinação.

E assim lá está o sistema gerindo o país como um Dumba Nengue. O sistema habituou-nos a delapidar do erário público e, quando não havia mais para roubar, o sistema pô-lo a vender aos bancos estrangeiros. O sistema vendeu o país, ou melhor penhorou-o. Agora, nós o povo, temos que pagar aos bancos estrangeiros, o país que é nosso, para o termos de volta. Mas para termos o nosso país de volta será dentro de cerca de quinze anos. Mesmo assim, vendido o país, penhorado os nossos direitos, penhorados os nossos lares e famílias, o sistema pensa que o queremos, que por ele morremos de amor,  e não podemos viver sem ele, quando a prática prova o contrário. Indubitavelmente, já não damos com ele, ele é que insiste ser-nos importante. É estranho que aquele que nos rouba o demos como imprescindível. Para não parecer que padecemos da síndrome de Estocolmo, em 2019 vamos ter de mandarmos passear o sistema, de vez, para a Patagónia.

O sistema finge que vive para o nosso bem, mas a verdade o sistema explora-nos, é parasita, não consegue viver senão no nosso sangue. O sistema que vivemos é de puro sanguessugas. Já nos tiraram tudo. Já espremeram até à última reserva, andamos todos de tangas, mesmo que tal não transpareça. E porque o sistema habituou-se a mentir agora faz-nos crer que a ponte que teremos de pagar com os impostos que subiram, os salários que não crescem, é a segunda maior ponte de áfrica, que é flutuante, fantasias que tais, para para elevar a nossa auto-estima, distrair-nos da desgraça com que nos sufoca.

Em resumo: esse sistema sempre justificou a sua incompetência, como na restrição de água e luz, às actividades “terroristas” dos seus oponentes. E no que é óbvio, nunca deu nada e jamais voltará a dar. Com sistema ou sem sistema andamos mal. No dia em que conferirmos essa suma verdade, já teremos perdido meio século a adularmos esses sujeitos, e o tempo não andará para trás, teremos os filhos e netos de gente ligada a esse sistema, a amarrarem os nossos descendentes. Tudo agora está em nossa mão, se é isto que pretendemos: mantemos esse sistema que nos escraviza, para depois termos os seus a delapidarem os bancos, as empresas públicas, num ciclo-vicioso que jamais conhecerá o seu fim, ou destruirmo-lo e erguermos de novo. (Adelino Timóteo)

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