Renamo rendeu-se à Frelimo

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Beira (Canalmoz) – Definitivamente, entendemos cada vez menos a estratégia de como a Renamo pensa chegar ao poder nem o que vai fazer quando for Governo. O que mais nos admira é o facto de a Renamo se atirar ao chão quando todo o público espera que vai a cortar a meta. Estamos mais próximo da verdade quando dizemos que a Renamo nunca teve a ideia de, um dia, ser Governo e os passos seguidos pelo novo presidente, Ossufo Momade, não diferem dos seguidos pelo seu antigo líder, Afonso Dhlakama, que  Deus o tenha no seu esplendor, que fugia do poder como o diabo foge da cruz. Poucos entenderão a maneira como a Renamo negociou o pacote da descentralização porque todo o poder ficou nas mãos do presidente da República através do seu secretário de estado. As imagens que nos chegam das conversações, em Chimoio (2 Junho), Nyusi apareceu na cabeceira da mesa enquanto as delegações estão frente a frente. Não são parceiros do processo da paz – Nyusi é  chefe e Momade subordinado. Isso é de todo inaceitável.

O “slogan” que usou para matar dois coelhos com uma cajadada é a descentralização que, de facto, é uma centralização sufocante que deixou o governador eleito desprovido de poder. A Frelimo, com um golpe de mestre, voltou a enganar a Renamo a deixar-se enganar. Nas eleições de 15 de Outubro próximo, a Frelimo pode não conseguir fazer eleger nenhum governador de província, todavia continuará reforçada porque o governador eleito não passa de simples corta-fitas, sem poderes para enxotar moscas. Tudo isso é  pela paz ou se deve à ausência de ideias de como fazer vingar a democracia?

Vimos, nas câmaras televisivas, como Nyusi falou, em Chimoio, sobre o acordo a que chegou com o presidente da Renamo, deixou transparecer o entusiasmo pelo troféu que conseguiu. Não falamos que deveria dificultar mas, que se batesse por um acordo justo, em que todos ficam a ganhar, que estanque, para sempre, os motivos do ressurgimento de novas confrontações militares a seguir às eleições.  Isso, quanto a nós, ainda está muito longe e o tempo dar-nos-á razão. Que tipo de acomodação Momade negociou com Nyusi? Uma mansão, grandes escritórios, viaturas de luxo e um pelotão de empregados e um saco cheio de dinheiro? Que se saiba, Momade vive em Maputo desde 1992 e com responsabilidades relevantes no partido onde até foi o seu secretário-geral.

Quer dizer, lutam, somente, pela acomodação pessoal e não pela conquista e exercício do poder político. Neste momento crucial de luta, agendar o debate pela acomodação pessoal é falta de agenda política. Isso é muito grave para um partido como a Renamo que se diz lutar pelo povo. A lei diz que todos os partidos, incluindo a Frelimo, são iguais. Não parece que seja isso o que a Frelimo e Renamo estejam a desenhar. Uma incongruência total e em parangonas para que todos possam ver. Pregam uma coisa e, na prática, fazem outra, diametralmente, oposta. Nós esperávamos que Momade e a sua Renamo negociassem, só e somente só, a paz, o fim das disputas militares e não outras coisas como o que fomos dados a ver. Assim, vamos concluir que a Renamo não é algo sério e em que se pode depositar plena confiança.

Se Momade negociou a sua acomodação, torna-se pertinente questionar o que discutiu sobre as viúvas e órfãos das vítimas dos esquadrões da morte? Em Macossa, província de Manica, vimos com os nossos próprios olhos, várias dezenas de corpos inertes jogados em valas comuns e outros debaixo de pontes, mortos pelos esquadrões da morte. Foram tomados em conta esses factos? Altos quadros da Renamo foram assassinados e as suas famílias precisam de protecção. Hoje,  estão entregues à sua sorte, até  aos dias que correm. Alguém se lembrou das suas famílias?

Estamos recordados de José Manuel, membro do Conselho de Defesa e Segurança do Estado, assassinado à queima-roupa, na Beira; Jeremias Pondeca, membro do Conselho de Estado, baleado mortalmente enquanto fazia ginástica matinal na praia da Costa do Sol, na cidade de Maputo; Manuel Lole, membro do Conselho de Estado, raptado na presença da mulher e filhos, em plena luz do dia, nos arredores de Chimoio. Momade lembrou-se, também, deles e das suas famílias e colocou esta questão ao seu “irmão”  Nyusi? O povo quer uma paz verdadeira e não uma fantochada qualquer.

A Renamo é um partido soberano, pode seguir o caminho que achar melhor para si, porém, não tem a liberdade nem o direito de jogar na lama o nosso destino comum. Pode negociar para ficar com sacos de dinheiro, pode recusar chamar os demais partidos com mais-valia de se juntarem a si a fim de evitar dispersar votos da oposição, todavia, não tem o direito de vender o país e seu povo à Frelimo. Todos sabemos que a Frelimo está demasiado podre, já não tem nenhuma surpresa a apresentar ao povo, mas tudo indica que vai vencer as eleições de Outubro próximo, por culpa da postura da Renamo. As dívidas inconstitucionais que nos sufocam foram contratadas para proporcionar uma vida folgada aos dirigentes da Frelimo e aos seus apaniguados.

O povo está farto da Frelimo, quer mudanças nas suas vidas, mas a Renamo tudo faz para a Frelimo continuar no poder. Sabemos que nem a Renamo nem o MDM poderão alcançar o poder enquanto não se juntarem em uma frente eleitoral. Pensar vencer a Frelimo sozinho é um sonho. A Renamo recusa-se organizar uma frente eleitoral para favorecer a Frelimo. A larga base de apoio à Renamo é insuficiente para vencer a Frelimo. O alto controle de voto pelo MDM não derrota a Frelimo. A Frelimo não precisa de votos para vencer uma eleição. Precisa, apenas, do STAE, CNE, dos tribunais distritais, Conselho Constitucional e da Polícia. O resto serve para entreter os mais distraídos.

Momade preferiu comer com Nyusi a ficar do lado do povo que se bate para se libertar das garras dos mafiosos da Frelimo. O presidente da Renamo entregou o seu partido à Frelimo, como troféu de guerra. (Edwin Hounnou)

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