Sobre o presente e o futuro

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Estes dias marcam oficialmente o início da pré-campanha eleitoral, se bem que é certo que Filipe Nyusi, com os órgãos do Estado, já está efectivamente em campanha eleitoral para as eleições presidenciais de Outubro de 2019.

E por falar em Nyusi, foi notória a mobilização que foi feita para a apresentação da sua candidatura na passada quinta-feira (6 de Junho) e foi notório que existe um Moçambique à parte, um Moçambique das caravanas de viaturas de luxo e de motos de alta cilindrada. Um Moçambique cujas actividades são sempre dignas de transmissão em directo pela televisão pública, num claro alinhamento político partidário da imprensa estatal, sabendo-se que os outros moçambicanos que foram apresentar as suas candidaturas não mereceram honras de Estado na imprensa. O que aconteceu na apresentação da candidatura de Filipe Nyusi é uma antecâmara de uma luta entre David e Golias que vai acontecer nestas eleições, em que, na verdade, os partidos da oposição deverão disputar as eleições contra as instituições do Estado moçambicano, que deviam, por lei, ser isentas.

Mas o que nos leva a esta reflexão não é este desequilíbrio ilegal de forças, que não é novo, perante o olhar impávido do Ministério Público. O que nos interessa aqui é o futuro, perspectivado a partir dos acontecimentos do presente.

A questão é muito simples: vêm aí as eleições em que os moçambicanos terão a oportunidade de, mais uma vez, decidir se pretendem continuar a viver este calvário e deserto de ideias, ou assumem o risco de experimentar outras possibilidades. Para já, parece-nos que um dado é muito certo: pior do que já está não é capaz de estar. Temos sérias dúvidas de que haverá privações maiores do que estas a que o povo está sujeito, onde falta imaginação para colocar o país a funcionar. Mais do que isso, a cada dia que passa é visível que este país está a afundar-se, e a incerteza do futuro é cada vez mais evidente.

Chegámos a um ponto em que já não é preciso ser letrado para entender que este país está órfão de direcção, está órfão de projecto político mobilizador que una os moçambicanos de todas as raças, tribos etnias e idades. Os últimos quatro anos, que foram designados como “novo ciclo”, foram anos de experimentações mal sucedidas, em que, no fim de contas, quando olhamos para trás e para onde estamos actualmente, não nos resta réstia de dúvida de que estivemos a caminhar para trás a todos os níveis. Apenas fomos vítimas da ilusão da nossa própria posição durante a caminhada. Caminhámos com os olhos para frente, mas com passos regressivos, o que quer dizer que vimos aonde devíamos ter ido, mas a incapacidade crassa e a falta de imaginação não nos permitiu ir aonde era suposto que fôssemos.

Não se pode aqui deixar de dizer que, na habitual lógica clientelista, há famílias devidamente localizadas e identificadas que deram passos gigantescos na acumulação de riqueza, não porque essas famílias tenham sido mais trabalhadoras do que as outras, ou que tenham desenvolvido capacidades intelectuais ou força braçal superior às famílias vulgares. Tão simplesmente porque integraram o clube daqueles para quem chegou “a vez de comer”, como sói de se repetir o refrão.

E agora estamos aqui. Aqui, com o país como está. Aqui, com o futuro muito incerto, muito por culpa do que vai acontecendo por enquanto. E este estado de coisas tem sido propício para se fazer passar uma narrativa sinistra segundo a qual ainda há pior. E o que seria o pior? Nessa perspectiva, que fundamentalmente advoga a manutenção da situação actual, o pior que nos pode acontecer é que o actual bando seja corrido do poder. Nada mais falso e ludibriador.

A narrativa de que a substituição do actual grupo que detém o poder pode resultar em caos, como se não estivéssemos já imersos nele, foi concebida e é difundida exactamente por aqueles a quem interessa que isto continue como está, ou que pior ainda mais. É difundida pelos que acreditam que os nossos corpos ainda podem aguentar situações mais extremas de vida.

Interessa-lhes mostrar aos moçambicanos uma fotografia irreal, a de que eles são os melhores moçambicanos que temos, que eles são a selecção dos maiores cérebros desta terra. Interessa-lhes passar essa narrativa de que, fora deles, só eles. Faz-lhes um jeitinho que olhemos para a esquerda e a direita e haja um vazio, na mesma dimensão em que eles se colocam num pólo como os provedores da nossa salvação.

E é por isso mesmo que essa narrativa em que eles se colocam como a única alternativa a eles mesmos vem com um pacote de infantilização e ridicularização de qualquer outra iniciativa de moçambicanos que se possa apresentar como solução. E é com alguma tristeza que se vê que os partidos da oposição subscrevem essas sugestões sinistras, acabando por serem colaboradores da trajectória da sua própria desgraça.

Não é por acaso que, até aqui, a Renamo tem mostrado tendencialmente que não tem objectivos de poder. Os seus actos, de ano para ano, demonstram uma ideologia anti-poder e anti-responsabilidade. A Renamo convenceu-se de que o seu papel é o papel que está a cumprir agora, de legitimar os que estão no poder como um grupo de democratas que aceitam a existência da Renamo. Mais ou menos na mesma onda está, com os problemas colocados em outra dimensão, o Movimento Democrático de Moçambique, que não consegue sair de uma lógica pequena e local, para responder ao problema do vazio que existe.

Mas quer a Renamo, quer o MDM, ainda não conseguiram entender que estão a fazer parte de um expediente da sua própria banalização enquanto forças políticas, numa estratégia que visa colocar o partido Frelimo falsamente como a única alternativa válida.

Mas, chegados aqui, onde, quando olhamos para esquerda e para direita, parece não haver alternativas e esperança, cumpre-nos perguntar onde estão os moçambicanos de bem? Onde estão os moçambicanos honestos, trabalhadores, com convicções fundadas em valores de solidariedade, primazia da pátria e progresso colectivo fundado no trabalho. Onde estão esses moçambicanos?

O silêncio desses moçambicanos é mais terrível que qualquer outra acção de destruição do país. É o que disse Martin Luther King, que o que mais o preocupava não era o grito e a acção dos maus, mas o silêncio dos bons. Onde estão esses bons, que sabemos que existem? Não é verdade que não haja alternativa a este bando de falhados. Não é verdade que estes sejam os melhores. Não é verdade que os que querem Moçambique como um país miserável sejam a maioria. Não é verdade que o triunfo da nulidade e da incompetência nos tornou a todos impotentes, ao ponto de também sermos difusores dessa teoria de que não há mais alternativa e não há mais esperança.

Não é verdade que as nossas referências comecem em Manuel Chang e terminem por aí. Onde estão os verdadeiros moçambicanos, os que amam este país e estão dispostos a fazer alguma coisa para salvar este país? Este é o momento de os bons se identificarem e assumirem as suas responsabilidades. Os habituais que se apresentam a votos são os mesmos rostos da nossa desgraça colectiva como país. Não podemos ser um pouco superiores a esta miséria humana? Achamos que temos condições para tal, desde de que cada um saia do conforto da resignação e defenda o país. Temos moçambicanos muito melhores do que estes tipos que se acham insubstituíveis por acção e omissão. Ainda há tempo de salvar o país. (CanalMoz/Canal de Moçambique)

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