A primeira vez que se viu uma limusina na Beira

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Beira (Canalmoz) Na primeira semana de Setembro de 2001, enquanto correspondente do Savana na Beira, fui convidado a cobrir a Cimeira tripartida dos, na altura,chefes de Estado Robert Mugabe (Zimbabwe), Bakili Maluzi e Joaquim Chissano, destinada a mediar a questão das reformas agrárias e a crise política no vizinho Zimbabwe. Fiz-me ao Aeroporto da Beira e, com outros colegas, aguardámos a chegada de Mugabe. Este não desceu do avião sem antes a sua moderna limusina preta ser tirada do porta-carga. Foi a primeira vez que vi ao vivo um avião daquele tamanho e também a primeira vez que vi uma limusina a calcorrear nas ruas da cidade da Beira, para o espanto e assombro também de vários outros adultos e crianças.

Na Casa Presidencial no Estoril aguardavam-no Bakili Maluzi e Joaquim Chissano.

Eram cerca das 12 horas quando o encontro à porta fechada começou. Prolongou-se por quatro longas horas.

Ao fim deste período de saturação, nós os jornalistas que andávamos a rondar o quarteirão fomos convidados a passarmos para o jardim daquela residência, para o briefing da Cimeira. Coube a cada um dos estadistas a palavra.

Ponho aqui um pormenor. Como eu estivesse exausto, deixei o meu gravador de registo no tampo do púlpito, onde os chefes de Estado se dirigiam a nós e fui-me sentar a um canto, livrando-me de me manter de pé e entre os colegas de televisão que faziam as filmagens.

Chissano começara a falar e eis que um dispositivo saltou elucidando que a cassete tinha desavidamente chegado ao fim. Naquela calma, própria de um meditador transcendental, Chissano deu conta do incidente e anunciara-o. Chissano, sem vocação para evasivas e no seu estilo paternal, interrompeu aí a sua alocução. Foi quando imediatamente saí da modorra em que me encontrava, para mudar a fita. Deste modo, ele reatou a sua exposição.

Transmitira-nos ele o resumo daquelas quatro horas de conversa. Uma mão cheia de nada e outra de coisa nenhuma. Mugabe trazia um cravo na lapela, que me chamou atenção. Era a mensagem de que estava a fazer uma intransigente revolução. Não disse coisa nenhuma nem anunciou futuras preposições. Era um homem irredutível e casmurro, que já tinha cometido a proeza de mandar calar o primeiro-ministro inglês, Tony Blair. Já advertira ao Ocidente, nas sanções que lhe tinham sido impostas, que não lhe importava um bledo pisar a Europa. Tinha os países do Sul do Hemisfério para visitar e a Singapura passaria a ir mais frequentemente, por questões de saúde, onde agora viria a morrer.

A despeito da ilusão de Mugabe, o Zimbabwe pagou alta factura. Era o país o Big Brother da zona centro do país. A crise no país das Pedras mergulhara mais uma vez a Beira em depressão, como quando Machel decidiu fechar a fronteira ao Ian Smith. Escasseavam alguns bens de primeira necessidade ou vinham já inflacionados da África do Sul. A província de Manica era um paraíso de farmeiros Zimbabweanos e chegara a ocupar a terceira posição entre as províncias que lideravam a produção nacional, deixando a Beira/Sofala na cauda. O meu amigo Soares Nhaca se convertera num dirigente solícito, sempre disposto a fornecer números e dados sobre o espontâneo crescimento de Manica, que lançava um dos maiores projectos do país, com a importação de flores para a Holanda. No Café-Pub Congas e no Restaurante Tropicana, as flores de Manica nos eram oferecidas, de borla, em noites boémias. Moçambique prometia ser uma nação estável, com governantes tecnocratas e comprometidos com a transparência da coisa pública. Com Nhaca viajávamos pela província e contactávamos individualmente com os mabunos zimbabweanos.

Por estas alturas eu me hospedava na casa de hóspedes do Governo de Manica e me impressionava com a postura de Nhaca, ao qual via eu todos os fins da tarde e inícios da manhã a regar o jardim do palácio, também a exercer outros misteres caseiros. Passava algo neste país que me deixava com muita esperança de mediar o jornalismo de investigação com o de acompanhamento, na vertente cobertura rural.

Voltando fio à meada, daquela Cimeira da Beira Maluzi e Chissano não conseguiram demover Mugabe da sua desventura. Mugabe continuou a arrastar o seu país para o precipício. Com uma folha de serviço anterior brilhante, Mugabe se foi distanciando do mundo e do seu próprio povo, aferrando-se ao poder e passando de um pequeno deus libertador do seu povo a um impiedoso sátrapa, assassinando a milhares dos seus opositores. Nas eleições de 2005 deixara desfigurado o seu rival Tsivangirai. A deriva do tio Bob continuou, até em Novembro de 2017 os militares em que se amparava lhe golpearem o poder.

O Rei nu, conforme o retratei no artigo que escrevi em 2001, perdeu a vida em Singapura aos 95 anos, sem glória, nem dignidade.  (Adelino Timóteo)

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