Caso Dércio: um exemplo de como a máfia actua

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Beira (Canalmoz) Os moçambicanos acordaram assustados, ontem, pela história de um famigerado jovem, que passando por rico e com contactos ao nível da classe dominante, conseguiu ludibriar uma rapariga e a família desta, no seu desejo de dar o nó com aquela. Bem visto, Dércio é produto do meio em que vivemos. Dércio é o espelho de Moçambique. Dércio é Moçambique. Dércio é a caricatura da nossa classe política, social e económica, que se matiza e começa a se tornar um padrão de modo de vida. Senão, vejamos:Dércio é um genuíno reprodutor de um modelo de sistema que está em voga. O que Dércio fez, apesar de em outra escala e numa qualificação diferente, segue os mesmos trâmites e passos na forma como o sistema político actua. Dércio, um jovem de 21 anos, fez como o Chang, fez como o Ndambi, fez como Nhangumele, fez como Gregório Leão e António do Rosário, buscando cooperadores, cúmplices, credores, para atingir a sua vontade e usufruir do gozo junto da nubente, do bem-estar social e financeiro. O Dércio fez um raciocínio e aplicou aritmeticamente os planos executados, numa fotocópia dos dirigentes que dilapidaram bancos (AVT e Credit Suisse), que não tendo dinheiro inventaram credores, conseguindo luxuosas transferências para as suas contas.

Dércio iludiu o sistema familiar, conseguindo destes garantias, após simular que estava a braços com incidente financeiro junto dos bancos, criando expectativa e chantageando hipoteticamente (que não casaria) se não reunisse as quantias requeridas, num modus operandi nada diferente dos cérebros do calote, criando expectativa e obrigando o entorno a actuar.

Dércio é, em miniatura, a imagem dos nossos dirigentes políticos, que conseguiram accionar garantias, criando empresas fantasmas. Dércio é uma paródia que retrata o modus de vida na sociedade moçambicana, onde a verdade e a honestidade não têm peso. Dércio é a farsa em que nós todos vivemos, com um partido que fragiliza o Estado e as suas instituições, pisoteia e ilude as regras socais instituídas.

Dércio é a fotografia dos que se dizem empreendedores e batalhadores, mas disto nada têm, construindo mansões e usufruindo de contas correntes, sem disporem de um tostão no bolso.

Dércio é o exemplo do glamour de que o país vive obcecado, quando é dos cinco mais pobres do mundo. Dércio é Moçambique no seu melhor, que com a suspensão do financiamento internacional ao Orçamento do Estado, paga as suas contas e os salários dos seus quinhentos mil funcionários, não honrando compromissos com os fornecedores de bens e serviços, recorrendo à dívida pública, mas passando a mensagem de que o Estado da Nação é resiliente, é estável e inspira a confiança.

Dércio é a ilusão colectiva em que os moçambicanos vivem, uma fantasia prolonga que se inventa, para não admitir-se o pior em que estamos e vivemos. Dércio é a falsificação grotesca e burlesca que a CNE e o STAE desencadeiam em todos os processos eleitorais, para darem vitória àqueles que não podem ficar senão contentes, nem que para tal se tenha que magoar a outros. Dércio é a encarnação da estafa e da impunidade, que está na moda, por isso Dércio escolheu um antigo ministro para padrinho e convidou um antigo presidente da República, para completar o tabuleiro que ele desenhou e oferecer a caricatura perfeita do nosso país.

Dércio é a reprodução apenas de um padrão que se tornou uma marca na nossa República, onde quase todos são propensos a comerem, beberem e vestirem a medida grande, à conta de uma vaca leiteira magra e depauperada que são as famílias sacrificadas pelo desfasamento do tecido social e por um Estado que há muito deixou de existir e se transformou no covil de uma corja de ladrões, criminosos e assassinos, que põem os seus comandos a agirem, quando se trata de defender a ilegalidade de um sonho que construíram e teimam estarem em pleno direito.

Há muitos Dércios que circulam a impunidade pelo país (veja-se o caso do infant terrible Florindo tantas vezes reportado pela imprensa nacional e estrangeira um ocioso que anda em comezainas e beberagem à fartazana), mas no caso o Dércio de que se fala caiu nas malhas, porque as farsas, as paródias e estafas sempre têm o seu fim, como terá o fim a burla eleitoral e a gangsterização do nosso Estado. O Dércio em causa não goza, desafortunadamente, do amparo dos mafiosos que nos governam. (Adelino Timóteo)

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