Heliodoro Baptista

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Beira (Canalmoz) Vou contar-vos uma coisa inédita: eram nove horas de uma manhã veraniça do ano 2001, quando bati à porta do excelso e honorável poeta Heliodoro Baptista, na sua “flat”, do Prédio Grelha, na Ponta-Gêa. O poeta estava há seis meses sem sair de casa, o que inquietava e apoquentava um determinado ciclo reduzido de amigos e íntimos, com o Adamo e o Gilberto Correia (Pai), à cabeça, que conferiam o insólito acontecimento, sem perderem de vista e a conta aos números da aritmética, de modo que me coloquei na “espinhosa” missão de trazer o poeta celebrado ao convívio público. No Café Capri era onde se fazia a tertúlia diária. O Heliodoro era refractário nas aparições (a Virgem só apareceu uma única vez em Fátima), mas, sempre que lá fosse, era recebido como um pequeno deus, com abraços efusivos e gloriosas celebrações. Será daqui que em sua homenagem e reconhecimento o Gilberto Correia (Filho, “aka” Betinho), que tinha o seu escritório de advocacia no último andar do Scala, lhe brindava com cafés, e salvaguardando com estas palavras: “Adelino, o Heliodoro é um resquício de poeta que temos na Beira”. Animava-se o respeito e a consideração à volta desta figura mítica e tutelar, que agitava a cidade e inquietava o “establishment”. Devo elucidar que isso seguia-se de forma desinteressada e sem se tomar partido das posições do escriba. A dimensão de Heliodoro já superava a cidade e, perante um esquecimento programático, ter-se-ia que acarinhá-lo.

Pois bem, batida a porta, a esposa, Celeste Mac-Arthur, abre-ma e cutuca comigo, falando em surdina e cotovelo com cotovelo: “Adelino, fazem já seis meses que o teu amigo não sai de casa. Convida-o para o café”.

Avancei para a sala e cumprimentei o Heliodoro com aquela deferência e reverência com que um novato poeta trata a um consagrado, pois Heliodoro era já canonizado “Porta-voz dos Excluídos”, vivendo como um faquir, despojado de toda a classe de conforto e privilégios, prescindidos para salvaguardar a sua independência, marcada pela rebeldia e dissidência da palavra, sem par. Na circunstância, Heliodoro fumava e, depois de expelir uma argola de fumo pela boca, disse ao seu filho Guy: “Faz um café para o Adelino”. Os filhos tinham-lhe muito carinho. Tinha um termo sobre a mesa, e o Guy pôs-se a bater o Café Ricoffy numa chávena, acrescendo uma segunda para o pai. Por aqueles tempos, as nossas conversas rondavam em torno a cafés, resultando que podiam estender-se por aí a quatro, cinco horas, ao mesmo tempo que numa medida proporcional deferíamos uma média de cinco, seis, sete cafés. Ao fim do dia batíamos um recorde de quinze chávenas de café, no meu caso sem prejuízo da insónia. Eu ainda dormia como um saco de pedras, e nunca menos de nove horas, despertando inquietações familiares, se não estaria doente. A paz do meu espírito era tranquila e transcendente. Heliodoro adiantava-me para o provir das pressões jornalísticas que podiam influir nas mudanças psico-fisiológicas, que lhe afectavam.

Acomodávamo-nos, cada um em sua cadeira. A cadeira preferida de Heliodoro ficava mesmo rente à porta da entrada, com vista para o acesso da cozinha e o corredor, num resguardo tal como quem controlasse as posições, numa circunstância de emergência, numa guerra civil. A um metro estava a varanda com uma bela vista sobranceira à Praia dos Pinheiros.

Heliodoro, um dos homens na altura mais lúcidos de Moçambique me lançara em 2000, na sua livraria Thandy, “Os Segredos da Arte de Amar”. Não sabia que a minha visita tinha sido motivada por uma missão: expulsá-lo temporariamente daquela cadeira, seu pouso, onde encubava as suas criações, rodeado de livros e jornais, de seus fantasmas e duendes, que atapetavam a sua corrida estante e o chão. Não sabia ele que o meu propósito estava resumido a uma breve conversa missionária. A cidade amava o seu poeta e eu não podia ficar indiferente à expectativa.

Tomei o café num sorvo. Me predispus a levantar, não sem tomar o fôlego da conversa. Eu sabia que não seria fácil, mas encontrei-o emocionalmente disposto a celebrar um acontecimento comigo, um livro de poesia, “Nas coxas morenas do Índico”, anunciara-me ele esse belíssimo e inédito título, que lhe ficou pela memória. Tinha os poemas esparsos pelo chão, que me assegurou, já tinham sido revistos e compostos pelo Gringas (“aka” Ferreira Mendes). Heliodoro, que estava num estado de transe poético, num estado de virtuosa felicidade literária, me fez um pedido: que eu lhe seccionasse o livro, servindo-me da minha veia crítica. Ao que aceitei, de imediato. “Devo-te um café”, disse-lhe eu, pretextando o convite a um âmbito, fora da atmosfera privada do seu pecúlio. “Vamos ao Café Capri celebrar este momento”, predispôs-se ele, antecipando-me.

Devo referir aqui um pormenor. Não era eu apenas que me solidarizava com ele. Em 1998, Heliodoro lançara-se numa greve de fome, inédita ainda hoje no país. Uma delegação da AEMO composta por Suleimane Cassamo, o dito cujo Pedro Chissano e Ba Ka Khosa fizera-se à Beira com o propósito de lhe dissuadir daquela opção limite, de exercício da sua cidadania, remontada a uma prisão em 1976, por seus artigos interventivos. Heliodoro foi um dos primeiros jornalistas a compreender a ilusão em que haviam caído os moçambicanos perante a crença do paraíso prometido pelos “nacionalistas e libertadores”. O que lhe custou, a seguir, cinco anos de desemprego, a auto-destruição individual e repercussões sociais, marcado por isolamento e distanciamento de muitos. “Eu era visto e tratado como um leproso. O que me salvou foi que tenho uma família”, contara-me ele por diversas vezes.

Volto à vaca fria. Ao fim de hora e meia, Heliodoro e eu alcançávamos o Café Capri. Os beirenses que lhe eram próximos celebraram-lhe naquele dia. Tivemos os cafés pagos. À saída,  Ricardo P. convidou-nos para um almoço no Clube Náutico. O almoço também estava pago. No Náutico, o gerente, João Mudumba (creio que seja esse o apelido, ele já cá não mora), convidou-nos à Discoteca Ngalanga, hoje Bruxa’s Bar, de que era proprietário. A discoteca estava paga e os aperitivos idem. A dose de honestidade, o desprendimento material e a resistência ao corrompimento eram a marca do escriba e esse é o seu mérito e honor.

Ainda naquele dia, recordo-me de ter acompanhado o excelso poeta à portaria do Grelha por aí a madrugada. As noites beirenses eram tranquilas e caminhámos a pé, os “batacuios” não tinham sido inventados. Desde aquele dia e por certo período ele não parou de sair. Veio à minha casa num dia por aí às 6 da manhã e eu dormindo como um saco de pedras não acordei e deixei-o lá a gosto a fumar e a tomar festivos cafés, que lhe fazia o empregado, de cada vez que ele os requisitava.

Continuámos a celebrar o livro. Apresentei-lhe a Nanci Lee, uma virtuosa poeta canadiana. Tivemos  e ainda fomos parar uma noite juntos ao Monte Verde. Heliodoro voltou a tomar um ou dois cálices de Amarula, em festiva celebração dos poemas da nossa confrade canadiana, que se editariam no dia seguinte nas páginas Diálogo, do Diário de Moçambique. Mas esta é outra história.

Comprei nestas derivas a minha primeira aparelhagem. Heliodoro Baptista, homem de bom ouvido musical, aconselhara-me a deixar a cargo de Guy a reprodução de um vasto e rico número de canções de Jazz, Blues, Funk, Beat, Rock, Afro, House Music, etc..  Carago! Faltava-lhe a Electricidade de Moçambique para estragar-lhe a felicidade, com um curto-circuito e subtensão histórica que arruinou a metade da cidade. Danificaram-lhe a sofisticada aparelhagem electrónica e Heliodoro caiu num novo ciclo de depressão. Muito amuado,  entre outros e diversos assuntos que o inquietavam, o copo transbordou. Telefonou-me numa manhã aziaga a anunciar que entrava em greve. Como amigo que fui e que viveu as consequências da primeira greve, sabotei-lhe. Não a anunciei. Não podia condescender-me a cair em prejuízos maiores, de perdermos aquele “resquício” A greve abafou-se. Ele não gostou. Mas uma segunda greve de fome estava-lhe efectivamente proibida. As marcas da primeira continuavam a ensombrá-lo. As vicissitudes e reveses idem. Heliodoro tinha os seus quês, mas tendo sido um homem de uma inteligência incrível, culto q.b., não foi aproveitado como devia ser, num país em que pouquíssimos se emprestavam ao seu nível de saber. Não o vi proferir uma palestra, mas era uma proficiente biblioteca, que sabia de ciências sociais e humanas. Tinha uma memória tão lúcida e tão prodigiosa que se recordava de aspectos da sua vida e de Moçambique, com detalhe. Falava do Egipto e da Grécia como se lá tivesse ido ou estado. Descrevia as deusas e musas como uma transcendência poética e desenvoltura como se as tivesse tido debaixo do olho. (Adelino Timóteo)

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