O regresso de Anna Karenina a Moçambique

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Beira (Canalmoz) Há dias, a diplomacia moçambicano-russa deu um giro, só comparável aos tempos do auge da euforia revolucionária, bem assim a sua decadência.

Quando os russos nos deixaram, ficámos a dever-lhes 3,5 mil milhões de dólares, de dívida externa, que se diz ter sido perdoada, não se sabendo em que proporção. À saída dos russos, para trás, deixaram-nos muitas lembranças. Recordo-me de tê-los visto chegar, envoltos em seus trajes militares. Traziam sempre estampados nosrostos aqueles sorrisos bonacheirões e matreiros, enquanto se deslocavam pela cidade em seus carros incríveis, como mini-buses colectivos Zis, os pequenos e monstruosos Gaz, o espalhafatoso KA3, até ao pomposo Kamaz. Tinham também os russos os pomposos Lada e Niva, tomados em siglas, o primeiro Leva Atrás Dirigente Analfabeto”, e o segundo Não Interessa Vamos Andando, numa paródia dos sagazes ao iletrado Samora Machel. Demais a mais me impressionavam as furgonetas Uaz 452, do Instituto Nacional de Cinema,  com uma máquina no tejadilho, através do qual víamos projectar periodicamente os filmes russos na Escola Nova ou no Centro Social. O modelo de que eu mais gostava era o Uaz 469, uma cópia ao Jeep Willys.

Os cooperantes russos moviam-se na sombra e ao longo dos dezasseis anos em que se mantiveram no país nunca se relacionaram socialmente com os moçambicanos comuns, senão na esfera militar e de cooperação, que os limitavam aos ministérios da defesa e de negócios estrangeiros. Até 1987 rondavam nos oitocentos, mais tarde decairiam para 55, sempre dispondo aquela atmosfera distante e um certo ar altivo, diferentemente dos vociferantes e festeiros cubanos, amantes de farras, do rum e das raparigas dos trópicos.

Na Beira, os russos confinavam-se a três guetos, com guaritas e seguranças à porta, militares com revólveres à cinta e Kalash em punho. A eles os beirenses classificam-nos até hoje por “prédio dos russos”: começa-se nas Palmeiras, oposto ao campo do Sporting, a seguir atrás do Mr. Frango dos Pioneiros, o último oposto ao Prédio Atlântida, no Maquinino.

Recordo-me perfeitamente de os olhar curiosamente. Quando por qualquer motivo passava por um dos seus prédios denotava um ambiente fechado, severo e sinistro, como o dos monges de clausura. Regra geral, cada um daqueles prédios dispunha no andar térreo de serviços de refeição e de lazer, concretamente cinema ao ar livre, em tela gigante. Da estrada viam-se os ciclos de projecções, não dobladas. Eu supunha que eles andariam a ver O Passeio Campestre do Sargento Subulha.

Para conhecer o imaginário russo, recordo-me de ter comprado uma Colecção da Biblioteca de Ciênciaficção e Aventuras, da Edição Ráduga, de Moscovo, nas livrarias Manuel Salema & Carvalho, também na Nacional da baixa e Sucursal, do Esturro, adjacente ao liceu. Fascinara-me o romance Roubo Num Museu de Província, Irina Strelkova, Poção de Marte, de Andrei Melnikov, “O Homem das Neves, Segredo Militar, este último do género conto infantil, em capa dura amarela, da mesma colecção.

O imaginário russo há-de ter influenciado decisiva e grandemente a geração dos escritores moçambicanos de 80 e 90. Não falo só dos clássicos, mas de nomes célebres desconhecidos lançados nas bancas das livrarias moçambicanas, quando a Edição Ráduga lançou-se na massificação e monopólio da distribuição dos mesmos. A determinada altura não havia nos escaparates daquelas livrarias senão os referidos títulos, entre outros de dogmas socialistas, ainda visíveis nos espólios dos alfarrabistas, na Beira e Maputo. Era o auge da revolução socializante no nosso país.

Por estas alturas, de manhã tínhamos aulas normais e à tarde aulas livres de russo.

Eu escrevia para a Rádio Moscovo e recebia regularmente revistas Sputnik”. Escrevia para a rádio da RDA e recebia uma panóplia de revistas Kontakt. Muitos dos exemplares compraziam-se a falar do paraíso russo, e eu, sedente, fosse o que fosse, a municiarem-me de informações sobre o Admirável Mundo Novo. A Sputnik” revelara-me o poeta Pushkin e as suas origens africanas, creio etíopes. Eu a pensar na altura como o antepassado de Pushkin poderia ter ido parar à paradisíaca Rússia. Eu a pensar como ele poderia ter sido tonto a jugar a sua vida num duelo, que lhe custara a vida, por causa de uma mulher. Pushkin é, para mim, um dos maiores e moderníssimos poetas líricos de todos os tempos e em todas as línguas. Mau grado, a fatalidade e o desastre já lhe soavam uma sina, dada a sua afeição aos amores proibidos. A obsessão pelos amores proibidos sempre perseguiu os poetas, em qualquer lugar, compenetrados a vidas intensas e a musa ideal. A musa de Pushkin era Anna Kem. Veja-se o caso de Alfred de Musset, recluso a um compartimento, que pintou de negro, inconformado pela dor da perda da amada.

Quando acompanhei do reatamento das relações de ambos os Estados não foi sem expectação e assombro que me recordei do perdão dessa dívida que colocara o país na esfera dos mais pobres e altamente endividados do mundo, com o montante global de seis mil milhões de dólares, metade dos quais em favor da Rússia. Era o ano de 1996.

O retomar destes contactos fizeram-me despertar fantasmas do entusiasmo da leitura da nobre Anna Karenina, de A Morte de Ivan Ilich, de livros de Gorki. E zás catrapus, há dias chegavam equipamentos militares russos. Resta saber em que condições, se haverá um novo contrato e as modalidades do mesmo, pois que não quererei entreter-me de novo com a Rádio Moscovo, as Sputniks, os postais de Kremlin e de São Petersburgo. Por estas alturas que os russos sofrem um isolamento e sanções económicas por causa da anexação da Crimeia não me quer parecer que vêm em missão de caridade. Moçambique dispõe de algo muito precioso, o Gulf Oil Petroleum. Tudo indica que proximamente as rivalidades Este/Oeste centrar-se-ão aqui, em Moçambique.

Não creio que seja ilusão. Passámos o segundo round da guerra fria russo-americana, desde aqui da costa do Índico. Os moçambicanos astutos, para contrapor aos ocidentais que lhes fecharam a torneira, bateram de novo à porta a Rússia. Neste momento estão em curso a criação de várias teorias conspiratórias, como aconteceu na guerra dos 16 anos, mas certamente os russos quererão o seu quilhão: o dinheiro do muito petróleo emerso nestas terras. O armamento descarregado agora no Norte do país é o busílis da questão. Numa palavra: vem aí a nova factura de 3,5 mil milhões de dólares ou mais. Bassopa! (Adelino Timóteo)

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