O último cooperante búlgaro

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Beira (Canalmoz) Num segundo andar de um discreto prédio, a dois quarteirões do Prédio dos Cooperantes, na Ponta-Gêa, vivia o engenheiro têxtil Sultanov. Este cooperante búlgaro trabalhara na Fábrica de Confecções Belita. Do parque industrial da Beira daquele tempo contava-se uma panaceia de indústrias têxteis: Menita, Ema, Facol, Púnguè, entre outras. No limiar de 1990 o Estado já alienara grande parte das empresas têxteis e, não obstante, na segunda metade desta década, Sultanov permanecia no país. Nesta época a Beira era devassada por greves de trabalhadores deste ramo e outros em processo de reestruturação e alienação. Eu entrara no jornalismo em 1995 e me especializara em cobrir estes assuntos estivais. Estranhamente, em 1999 já era suposto que se tinha posto uma pedra nestas greves e que me tornaram um jornalista aguerrido, a interpelar os intocáveis directores de empresas estatais, muitos dos quais petulantes e presunçosos. Guiava-me a máxima knopfliana: o jornalista é intermediário entre o povo e o poder. Pois, eram centenas de trabalhadores nas ruas da amargura e que tinham no Diário o único instrumento de pressão. Acabara praticamente a preposição irredutível da publicação à prepotência desses directores. Numa manhã chegara à portaria da publicação o engenheiro Sultanov. Seguro de que eu me vocacionara e me profissionalizara a cobrir assuntos melindrosos, solicitara ao Miguel, o recepcionista, para falar comigo. O que fazia o engenheiro Sultanov no país?

Quase caí num susto, pois Sultanov me parecera um fantasma a emergir de um assunto que me parecia encerrado. O Prédio dos Cooperantes já não acomodava praticamente nenhum especialista estrangeiro. No Hospital Central da Beira reincidiam meia dúzia de médicos russos de reconhecido mérito. Um deles era o lôbrego médico Vitali, que castrara negligenciamente o sexo a Vua-vua, caso esse com transfundo de ficção, que alimentara alguma polémica e a avidez dos leitores, sempre expectantes nas réplicas, tréplicas e quatréplicas de Vitali à Vua-vua. Um contributo às edições esgotadas, longe de satisfazer os intentos  de Vua-vua, de reaver a sua parte íntima e prosseguir o seu curriculum de touro. Ainda sobre os cooperantes russos, havia ainda a esposa daquele, Ludmila, também médica, o otorrino Alexander Popov, já moçambicanizado. Há muito partira a professora Larissa, de Física, lá do liceu. Um Igor restara e abrira a sua clínica médica. Por certo, proliferavam pela urbe algumas belas e pitorescas russas, qual rosas de porcelana, moçambicanizadas. A Nat era a mais emblemática. Trajava-se de forma excêntrica e era amiga das esplanadas. Tinha um dente de ouro, o que me ressaltara em Sultanov, logo à partida, quando o tive pela frente, cá em cima, na Redacção.

O homem que eu tinha sentado à minha frente era sorridente. Ao sorriso, se lhe distinguia duas covas nas maçãs-do-rosto. Sultanov parecia ciente do divertido que as covas se me converteram e antes de falar manteve a raias um riso, do que se lhe escapavam aquela coroa de ouro, na boca. Com um misto de cabelos pretos e prateados, na casa dos 50 anos, Sultanov não devia merecer o qualificativo de sorridente, pois era o mais problemático dos interlocutores que conheci. Aliás, insistiu tanto que lhe entrevistara na sua casa. Depois de uma ligeira resistência cedi-lhe, pois ele alegara ter um dossier com mais de meia centena de páginas e receava que lhe extraviassem.

Descemos os dois as escadas do jornal, atravessámos a portaria e mesmo à mão estava uma motorizada sua. Pô-la a funcionar e nos abalámos à Ponta-Gêa. A casa, que fora propriedade da Belita, fora oportunisticamente alienada por Pateguana, então director nacional da área têxtil. Na extensão da sua permanência em Moçambique, Pateguana, no silêncio do título de proprietário do imóvel, nunca tentara desalojar Sultanov, pois este era um homem rijo, rebelde e presunçoso.  Não falava com nenhum dos condóminos do seu prédio. Tivera conflitos com todos. Para acedermos à sua casa havia duas portas gradeadas e pelo menos oito cadeados. Parecia guardar um tesouro dentro dela. Depois de uma longa extenuação, por fim, aberto o último cadeado, seguiu-se-me o assombro. Passámos ao interior da casa. Deixou-me na sala. A sala vazia, senão com uma mesa e três cadeiras desengonçadas. As paredes outrora brancas, agora cinzentas, infames e um escrito na parede, do seu punho, assim: “ViVo Eu Ainda Sou ViVo”. Literalmente. Textualmente. O carpete da sala um decoro. Um ambiente pesado e um ar malcheiroso, na cozinha o fogão, os tachos e tarros gordurentos e oleosos.

Quando Sultanov retomou à sala reparei que trocara a camiseta branca, as calças cremes e usava agora uns calções e camiseta arrepiadas, sem cor. Trazia o dossier que pousou sobre o tampo da mesa, com alguma gordura e migalha das últimas refeições, creio de três dias anteriores. Pediu-me desculpa e foi buscar um pano imundo e “limpou-a”. Apesar de inquieto com aquelas fortes e pungentes imagens, deixei-me estar, aparentemente tranquilo, a pensar com os meus botõesque aquilo tinha que acabar o mais cedo possível e me abalar daí. No meio daquele panorama surreal, Sultanov era um homem calmo e menos dado às horas. Disparou um choradinho delicodoce, divagando na sua personalidade paternal, como progenitor de duas crias e resguardador dos mesmos e da mulher, que deixara Moçambique no limite da sua paciência e da capacidade de sobrevivência.

“Senhor jornalista, quando a minha mulher viu que eu já a não conseguia manter aconselhou-me: marido, vamo-nos embora”, explicou-me ele.

Continuei quieto, a ouvi-lo, assaltado pela sua voz gutural e aquele ar bafiento, a nojo, que me causava um mal-estar, umas cólicas e pretensão a largar um vómito, contido a muito custo.

“Mas eu lhe disse, mulher, segue tu e depois irei eu, quando tiver todos os assuntos arrumados”, contou-me Sultanov, que me sequestrara todos os sentidos, enfocando-os no seu drama, mas sem contemplar no meu estado quase mortiço, quase a sucumbir, no meio daquela imundície, agora uma mistela ebuliente com o cheiro fétido da casa de banho.

Na posição em que me encontrava os meus olhos acediam a um quarto da cozinha, àquele fogão engolido pela pasmosa e pastosa gordura, no chão um pequeno riacho, buscando a foz. Aquele drama em que ele não se entendia com os vizinhos que lhe faziam pouco, aquela paranoia de que todos lhe queriam roubar, naquela casa sem nada, com dois quartos, um deles sem nenhum imóvel, o outro com uma desqualificada cama, aquele chão sujo e com uma pilha de papéis e livros velhos em búlgaro, aquela alucinação trágica e apocalíptica de que o mundo conspirava pelo seu mal, deixara-me amuado, perplexo e inofensivo, sem tomar nota. Ao fim de quatro horas:

“Sabe, senhor jornalista, só sairei deste país quando o Estado me pagar os quarenta mil dólares que me deve. É isso que lhe tinha a contar, o contrato está aqui”, espetara-me ele, ao que o tomei estava com um homem potencialmente rico, não obstante a bater no fundo do poço, resvalando-se numa auto-destruição inexorável.

Chegou uma mulher nativa, ele ma apresentou:

“Senhor jornalista esta é a Júlia, a minha empregada”.

A Júlia corada cumprimentou-me. No rosto contorções e hematomas que a assombravam e faziam dela uma mulher triste. Muito triste, mas mesmo amarga, que me não dava vontade de olhá-la duas vezes. Os lábios inflamados, como quem recebera uma infusão de botox. Larguei-me daí à Redacção, eram cinco da tarde. Escrevi a estória, o contraditório idem. Uma promissora e esperançosa promessa a Sultanov.

No outro dia cruzei-me com a Júlia. Aquele rosto triste, o mesmo, aquela amargura, já uma tatuagem. Foi à frente da agora INATTER:

“Sultanov já se foi. Era o meu marido. Nunca fui sua empregada, embora ele me apresentasse como tal. Batia-me. Batia-me muito… Recebeu a indemnização e foi-se. Para mim, nem um único tostão.

Circunspecto, olhei-a inofensivo e impotente. Aquele rosto desfigurado. Aquelas lágrimas. Aquelas lágrimas e mais lágrimas. Na minha garganta um nó, muitos nós a dores alheias, do quanto me pesava nesta altura, neste momento, ser jornalista. (Adelino Timóteo)

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