Vamos todos votar e vigiar!

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Maputo (Canalmoz) – É chegado o momento de fazer valer a máxima democrática de que o poder reside no povo! Hoje, 15 de Outubro de 2019, é o tão aguardado dia em que todos os moçambicanos vão às urnas escolher quem os deve dirigir nos próximos cinco anos. Pela primeira vez, estaremos a escolher também os futuros governadores provinciais.

Permitam-nos, estimados leitores, esclarecer um equívoco quase colectivo que andou a ser espalhado durante a campanha eleitoral, segundo o qual as eleições são um momento de festa. Não. No nosso modesto entender, a festa pressupõe abstracção e algum divertimento à mistura. Mas as eleições não são isso. É o momento mais sério que uma democracia pode observar. É um momento de responsabilidade e, acima de tudo, de dever para com a pátria, pois o que estaremos a fazer hoje vai decidir como estaremos a viver nos próximos cinco anos. E uma decisão destas não pode de modo algum ser feita em festa, mas num ambiente de concentração e calma. As eleições são o mais basilar ritual da democracia, por isso um momento muito sério.

E num país como o nosso, onde a governação levou a população ao desespero e à falta de esperança, as eleições são o momento da verdadeira acção directa do povo, momento em que o povo, em acto único, chama a si a tutela de todos os seus direitos e ajusta contas com os maus políticos.

Podemos todos com o nosso voto rejeitar aqueles que, em vez de transporte condigno, ofereceram-nos os “my love”, chegando-se ao cúmulo de se achar normal que os cidadãos sejam transportados como gado.

Com o nosso voto, podemos derrubar a corrupção, o nepotismo, o amiguismo que se instalou no Estado, onde só tem serviços quem tiver um apelido ligado ao regime. Podemos, com o voto, rejeitar a corrupção como modelo de governação, o roubo despudorado do bem público, a exaltação da incompetência e dos incompetentes. Chegámos a uma situação tão ignóbil que as oportunidades de negócios, que deviam ser disputadas por todos os moçambicanos capazes, são directamente adjudicadas aos filhos, cunhados, sobrinhos e até às amigas de ocasião, como se o resto de moçambicanos fosse paisagem. Com o seu voto pode protestar contra esta forma de estar.

Aos jovens, permitam-nos uma exortação especial: os jovens são a maioria etária neste país, e, por inerência cronológica, o futuro do país. O dia de hoje é de grande responsabilidade para com o país que queremos ter no futuro. Os jovens têm, hoje, uma soberana oportunidade de deixarem de ser um mero elogio demográfico e uma maioria silenciosa e passarem a ser intervenientes relevantes. É tempo de tomar o poder com o voto e dizer “não” à exclusão, não à falta de políticas claras de emprego, não à falta de políticas claras de habitação. Os jovens devem hoje rejeitar a única opção que lhes parece reservada: formar-se e passar a vida a chutar latas na rua. Os jovens são o futuro deste país e ninguém poderá fazer algo por eles se os próprios jovens não assumirem as suas responsabilidades num dia como hoje. Devemos todos ir votar porque a nação chama por nós. O custo de vida está insuportável. Os salários são magros. Eles obrigam-nos a apertar o cinto, enquanto os seus filhos espatifam carros de um milhão de dólares nas ruas de Maputo. Eles andam de “Mercedes” e em outras unidades móveis de alta cilindrada numa cruzada insensível ao sofrimento do povo.

A justiça foi revogada. Temos de depender da boa vontade dos sul-africanos e dos norte-americanos para haver justiça contra os corruptos. Moçambique foi recentemente catalogado pela mais recente avaliação do Índice de Desenvolvimento Humano das Nações Unidas como o terceiro pior país para se viver no mundo. E isso não é ficção. Há compatriotas nossos neste país que dormem sem qualquer tipo de refeição, mas há uns senhores que têm quase tudo e à custa do suor de todos nós. Ir votar hoje e votar em consciência é o primeiro passo para negar este triste destino. Em Xigubo, na província de Gaza, há famílias que sobrevivem de raízes e disputam charcos de água com animais, num país em que os filhos dos dirigentes desfilam nas paradas mundiais de fortunas individuais como “milionários”. É dinheiro do povo! Xigubo não é um exemplo isolado. Quase na maioria dos distritos é assim como vive o nosso povo. Não podemos ficar felizes com este tipo de situação. Nas escolas, os nossos filhos sentam-se no chão por falta de carteiras, e os dirigentes traficam madeira em esquemas corruptos para a Ásia. Há mulheres a terem partos em assentos de bicicletas, à procura de um hospital. Algumas morrem de dores após percorrerem quilómetros pé à procura de hospital para ter parto. Quarenta e quatro anos depois da Independência Nacional isto é absolutamente inaceitável.

Não ir votar e ficar em casa ou ir passear é concordar com todo este tipo de falta de humanismo, é passar a sentença e aceitar este destino. Não ir votar não é solução, é meio caminho para os maus voltarem a triunfar. É um grande erro. As coisas não se vão reparar por si só. E esta não pode ser a escolha. Temos todos de ir votar. E não basta votar, infelizmente! É preciso que estejamos atentos, como cidadãos, a todas as movimentações estranhas que podem pôr em perigo a transparência e a seriedade do processo. É preciso estarmos atentos para que a vontade popular não seja depois subvertida pelos inimigos da democracia, os inimigos da vontade do povo. As recentes eleições autárquicas foram uma academia que nos ensinou que só a vigilância de todos pode garantir que a decisão dos eleitores não seja viciada.

Às autoridades policiais temos apenas a informar que têm amanhã uma oportunidade para merecerem a confiança e respeito do povo, se se comportarem em estrita defesa da lei. Poderão conquistar a simpatia popular se não actuarem a mando de forças estranhas ao processo. O povo moçambicano já deu provas da sua maturidade e da sua organização, não havendo motivos para que a Polícia se agite e intimide as pessoas. Esperamos que a Polícia defenda os eleitores e esteja do lado da ordem e da lei, porque, ao fim e ao cabo, também são moçambicanos prejudicados pelas más práticas que foram sendo cultivadas neste país. Vamos todos votar, com a consciência que do seu voto depende o futuro de Moçambique. Vote e vigie. (Canal de Moçambique/CanalMoz)

 

 

 

 

 

 

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