Thazi: (À Quina e à Lelita, raparigas do Macurungo, que o sabem soletrar de cor e salteado)

0
533

Beira (Canalmoz) Um dos músicos intérpretes da música ligeira moçambicana e que marcou de forma indelével o seu tempo é, sem dúvidas, o Thazi. Tendo atingido momentos áureos da carreira  no final da década 80, Thazi tornou-se um ícone dos músicos da sua geração. Interpretando os seus números na língua xi-sena, as suas mensagens chegavam-me de forma inteligível, ainda que por vezes tivesse que concorrer a algum suporte de tradução.

O que me impressiona ouvindo Thazi é a poeticidade da sua música, o seu lirismo, muito ao rés do solo do Rio Chiveve. As músicas de Thazi estão envoltas numa plasticidade que reflectem o cotidiano do nosso viver, incarnam também o modus de vida do próprio músico, as suas afinidades, gostos, cheiros, lugares comuns, amores e desamores.

Devo aqui colocar um parêntese. O contexto em que se vivia, voltado às raízes e à tradição, explica grandemente o boom deste cantor. Explica também o seu sucesso a imposição dos ritmos autóctones, no nosso viver. A edição musical era da competência da Rádio Moçambique, que dava cabimento a uma directiva de acabar com os alienados culturais, lançada em 1975. No ciclo reduzido de meus familiares persistíamos por esta altura a ouvir os discos de vinil do Lindomar Castilho: Eu canto o que o povo quer, Eu não sou nenhum bandido. No Macurungo, lembro-me de ouvir de outro lado do muro da nossa casa, um dos Viegas, a cantar Lalarita: Se você vai seguir seu caminho – a afamada Garota para mim não é nada então banida do circuito e da antena da RM. Lalarita reaparecera em 1996, numa entrevista a Narciso Castanheira, prometendo maravilhar os seus fãs. Era uma promissora voz que ficou-se por aí. Na Beira pós-independência, Romualdo com a sua dicção semântica matizada no assento português, interpretando canções em ndau/português, confirmaria o seu talento, com os Interrogados 77Ury kussimira uchone Izabere / Unga famba muguandja vando vesse vanokulinguissa é yahoooooo (Está-se a vestir bem Isabel / quando caminha pela estrada toda a gente a olha). Porém, David Mazembe e Madala fizeram percursos a sós, deixaram marcas indeléveis. Ao lado de Gil Pinto, Cezerilo, Isaú Menezes, Said Ali, Djalma, estes, com o Domingos de Oliveira, deram forma à música ligeira moçambicana actual e particularmente a beirense, que se mantém na mó de cima com Jorge Mamad, os Mussodji e os Djakas.

Retomemos o tema: Thazi. Nunca ninguém me pilhara a esboçar um sorriso solto, mas Thazi podia me ter apanhado. O gracejo estava na sua música Makalira Wanga.  Diz a letra: INE pano dez-dze wanga /… dez-dze wanga ndja tchinambua (Esse meu azar é de cão); Anenda assossa ndine /, anadia nhama ndi paca (Quem vai trabalhar sou eu / Quem come carne é gato).

Makaliro Wanga fixa na crítica ao cotidiano. Eu me ria porque se revestia/reveste na actualidade do tempo. É uma música intemporal, pois a mensagem mantém-se válida, atravessará muitos tempos, dada a sua profundidade. Recordo-me que Makalira Wanga se inscrevia perfeitamente naqueles tempos, pois que nos bairros dos arredores, o incauto distraído que deixasse a panela ao lume, fora de casa, confrontava-se depois de aparecer com o sumiço da mesma, dado que os protagonistas do fenómeno panelas voadoras não deixavam os seus créditos em mãos alheias. Tomavam-nas e desapareciam no escuro.

A mensagem de Makalira Wanga tanto é válida para fenómenos sociais como para fenómenos políticos, indexando-se na problemática da nossa democracia, em que alguém vai trabalhar o seu eleitor e quem come carne é gato. Thazi teve uma carreira fulgurante e de sucesso. Em 1988, num espectáculo promovido pelas Organizações Goonda, de Mussa Kara Chapdat, em que John Chibadura era o cabeça de cartaz, Thazi teve a honra de abrir o evento, no Ferroviário da Beira. Desde então, a sua fama subiu exponencialmente, e nessa qualidade foi convidado a tocar no Zimbabwe. Popularizou-se no Malawi, pois a familiaridade do Nyanja com o xi-sena propiciou a situação, aliada não só a poeticidade da sua música, como também ao recurso aos aforismos e ditados, de que ele bem sabia explorar, para se configurar nas bases sociais, dos desfavorecidos. Na Munhava como na Inhamudima, Makalira Wanga era como um hino. À Munhava, onde vivia ele, eternizou com um número especial. Eternizou também a Cerâmica. Por vezes, o ouço tocar na rádio e vejo as pessoas de ouvidos atentos nele, na sua mensagem, com o mesmo encanto e assombro. Parece que Thazi continua na mó de cima. Parece que o tempo continua ainda parado naqueles difíceis anos de guerra, de fome, de miséria e indigência, em que com a sua música Thazi consolou a muitos.

Thazi era um canto de amor. Nessa condição encantou muitas das suas fãs. Algumas podem ter constituído suas musas: Rosa, Maria, Madalena e Cristina. Não é possível escutar Thazi sem que nos ocorra alguma emoção, sem que se nos fixe a memória de um tempo indelével, em Sofala, sem que não nos trespasse uma lágrima no canto do olho. Nas conversas com pessoas amigas, nos muros da aprendizagem, ao tempo da minha adolescência, focavam-me Maria nestes termos: é um hino de amor; Rosa é também um louvor a pessoa amada. Madalena, no estilo reggae, contém escárnio e maldizer, perto do desancanto, senão mesmo de desamor: Madalena mussoro wa n’somba /, Madalena mussoro wa m’buzi (Madalena cabeça de peixe; Madalena cabeça de cabrito).

Todavia, Thazi chegou à notoriedade cantando Mamuna Nkulo, na gíria local n’tchuno, cuja tradução nos remete para o seguinte: Tu não namoras como é que acabas o dinheiro? O sexo (n’tchuno) te descontrola /, homem grande, o sexo te faz acabar o dinheiro… Deixas a tua mulher e criança à fome e nudez, levas o dinheiro… para acabar com mulheres nkazi). Esta música de um forte teor de intervenção social e de educação cívica teve importância na consciencialização no decurso da emergência da doença do século. Oliveira também deu corpo a esse movimento de consciencialização: Unafa ussia utchi iweee/Unafa ussia utchi  (Tu vais morrer deixar o mel / tu vais morrer deixar o mel). O exímio e inesquecível vocalista Walter, do Djaaka, seguiu-lhes o repto: SIDA onoraia.

Com o advento da democracia, em 1994 Thazi recebeu uma aparelhagem nova e colocou-se ao serviço da campanha de Afonso Dhlakama. Daí viria a sofrer retaliações e banimento na prossecução da sua brilhante carreira, por parte do poder político actual. Recordo-me que em finais de 1995, meu colega Abubacar Selemangy entrevistou-o e publicou-lhe uma entrevista na página Magazine. Magazine era um espaço nobre, na última página. Thazi não conseguira responder o que tinha no seu sonho, ao seu horizonte, na carreira como músico. Limitou-se a afirmar que sonhava a música. Deixou claro que estava dividido dentre dois amores. Na fotografia que acompanhava a entrevista, usava uma boina basca, uma camisa floreada e algumas mascotes no pulso.

Tenho uma memória fotográfica desta entrevista. Também tenho a memória fotográfica do Thazi. Baixinho. Fuinho. Rosto anguloso. Dentadura completa. Calças malhadas, pelo menos sete centímetros acima dos calçados brancos. Cinto com rebites. Era um Michael Jackson autóctone. Era tímido, mas de sorriso bonacheirão. Tinha propensão para a galhofa. Na Casa de Cultura da Beira, onde nos cruzámos por várias vezes, Thazi subsumia-se numa presença comum, humilde, sem nenhuma sombra de altivez, e, no entanto, era uma estrela. Por aquelas alturas não havia os sponsor’s poderosos como as actuais companhias de telefonia. Thazi era um ícone e ele o sabia, mas fingia não o tomar-se em sério na pele de uma estrela, para não tornar-se presunçoso.

Depois daquela sua airosa campanha em favor da RENAMO e Dhlakama, em 1996 estava visto que Thazi caíra em declínio. Thazi passou a ser tratado como um leproso. Ninguém o queria por perto. O regime retirou primeiro o apoio ao Mussa Kara, que era o maior empresário de Sofala, com lojas em parte dos distritos de Sofala e Manica. Thazi morreria daí a pouco, na miséria, como ele bem predisse: Esse meu azar é de cão. Ele provou as agruras deste regime na pele. Mussa Kara, aquele que reabilitara parte do Hospital Central da Beira e doava comida aos pobres, haveria de acompanhá-lo na ida ao firmamento.

No assento etéreo onde os dois se encontram (Mussa Kara e Thazi) espero que não estejam a viver o tormento e o estertor da mordaça que se mantém neste vale de lágrimas.

Dê-lhes Senhor o Eterno e Merecido Descanso! Amen! 

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here

dezoito + 18 =