Os três Moçambiques da nossa desgraça colectiva

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Beira (Canalmoz) Quando Moçambique era um paísexemplo da reconciliação e paz, lembro-me queolhávamos com piedade para os nossos coitados irmãosangolanos e somalis, para os nossos pobres irmãosruandeses e burundeses. Para enfocar-vos, recordo-me das imagens mais horripilantes que nos chegavam daqueles países, lembro-me de Gronzi, na Jugoslávia, ou de um capacete azul a ser arrastado por uma viatura em andamento e o impacto dessa morte nesta Somália, que eu tomara por inferno do mundo. Moçambique, recémpacificado, era um idílio, enquanto os tsutsis e hutus se matavam. Eu sentia muito orgulho por os moçambicanos terem pacificado o seu país e por os dois beligerantes, Dhlakama e Chissano, se tratarem por irmãos. Eu cria que os moçambicanos eram mais compreensíveis e mais tolerantes a aceitarem viverem na diferença. A respeitarem-se mutuamente, a partilharem o poder. Eu estava iludido. Os moçambicanos são tão iguais aos somalis, aos ruandeses, aos congoleses. Aquela minha percepção sobre o nosso urbanismo era uma fantasia infantil. Os moçambicanos não têm nada de pacíficosobre o qual eu me convencera. Numa palestra que eu dera recentemente na Alemanha, alguém me perguntara como conseguia eu viver neste pais, se não pretendia uma bolsa de criação por um ano, para evadir-me deste inferno. Disse-lhe que melhor viver no meu inferno que no inferno dos outros. Cada vez mais estou preparado para aceitar o negativismo da nossa herança avara em se respeitar. Não me conformo, mas com a malícia reinante, estou impotente. As campanhas eleitorais, os comícioseleitorais atestam que desconstruímos a ilusão com que nos críamos melhores que os angolanos, que os guineenses, aos quais tocam nos olhar como coitados e pobres. Quem me certamente ter-se-á apercebido que eu traçara as conjecturas do que seriam as eleições e o momento pós-eleitoral. Já antes dela, eu falava de detenções, da melhoria do gráfico da actuação policial, dessa mesma polícia que ao longo de cinco anos nãoprende ladrões, não actua contra os infractores, mas que ao tempo das eleições são mais eficientes que qualquer polícia do mundo, para matar o patrício opositor, para prender o patrício opositor, para participar nas manobras de enchimento de urnas. Já aqui fiz uma conjectura: caminhamos inexoravelmente para a fragmentação da nação, por culpa do egoísmo, por culpa da prepotência de uns que ganharam eleições com o uso da força. muitas armas na posse de gente marginalizada, excluída, disposta a espalhar o sangue, para mostrar que tambémtem força. Isso decorre da ruptura do contracto social. gente disposta a mostrar que também tem força como aqueles que mandam desde o poleiro da nação. O Estado encontra-se nas mãos de um grupo que o capturou e gangs marginalizadas estão a semear o caos em lugares onde o Estado não se faz sentir pelo seu poder coercivo. Ou seja, o poder coercivo do Estado começa onde a elite predadora o defrauda, o saqueia, onde semeia o sangue e o luto, em processos eleitorais, e o grupo dos marginalizados por esse mesmo Estado pauta pela mesma incongruente conduta. Moçambique entra no ranking de país com poderes paralelos, com Estados paralelos, que dividem a sua actuação entre os que saqueiam dos tesouros, torpedeiam a justiça e os que garimpam o pais espalhando o luto, a diário, no centro e Norte do país. Ou seja, estamos entregues aos bandos que retalharam a pátria. Por um lado, uns bandos oficiais, por outro lado uns bandos informais. Alguns dirão que sou pessimista, mas se alguma vez o fui, sempre tive esperança em Moçambique, mas convenhamos: agora temos vários Moçambiques. um Moçambique de Nyusi, que viola os direitos mais elementares da Carta das Nações Unidas sobre os direitos civis e políticos, o Moçambique de Nhongo que ataca viaturas civis e o Moçambique dos insurgentes de Cabo Delgado. Cada um à sua maneira, semeia terror, semeia o luto. O Moçambique de Nyusi, do Nhongo e dos insurgentes sãotodos iguais. Porque em 2014 Nyusi chegou ao poder por fraude, em 2019 repetiu a proeza. Os três Moçambiques a que me refiro têm uma base na ilicitude. O que se quer saber doravante qual dos três Moçambiques ilegais se imporá sobre o outro. Os três Moçambiques têm o mesmo poder de matar com frieza. O Moçambique de Nyusi mata com os seus esquadrões da morte, nas cidades onde vivemos, por isso sempre com a morte ànossa espreita. O Moçambique de Nyusi não gosta de intelectuais como eu que pensa e fala abertamente, que Nyusi roubou dinheiro ao Estado, ao povo pobre, e devia devolvê-lo, ao menos isso, porque foi apanhado, e qualquer discurso seu sobre a corrupção será alvo de chacota e comiseração. O Moçambique de Nhongo devia ter vergonha das horrorosas mortes e ataques a inocentes e indefesos em Sofala e Manica. O Moçambique dos insurgentes a norte matou quase mil nacionais. Teatralizam os russos como os somalis o fizeram aos capacetes azuis. Moçambique, com os seus vários paísesinstalados nas suas fronteiras, tornou-se um dos locais mais perigosos de se viver, porque os que tambémaproveitam do caos para sequestrarem gente endinheirada. Auguro que o Moçambique de Nyusi se reconcilie com o do Nhongo, como com o dos insurgentes. Porque nenhum dos três Moçambiques pode viver a margem do outro, porque sendo Moçambique sofremos juntos. Tem toda a razão que evocam, mas que podem tomar-se no meio-termo para sairmos da triste posição de país mais pobre do mundo. Pobres podemos ser, não importa, mas com a concórdia reinando entre todos. Para terminar: não deixei o Moçambique de Ossufo Momade de parte. Li algures que o Moçambique de Momade anda de férias pelas europas, ginga-se com boletins de votos que o Moçambique de Nyusi encomendou aos Sidats, para continuar a prosperar o seu reinado. Momade ameaça agir em função dos resultados a serem divulgados. Apelo a Momade que não o faça por meio da força letal, pois no meio de tantas armas e búfalos feridos quem sofre somos nós, o povo. Por favor, nem mais um único morto. (Adelino Timoteo)

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