Retrocedemos bastante

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Beira (Canalmoz) As eleições de 15 de Outubro de 2019 vieram demonstrar aos mais cépticos que o nosso país retrocedeu em quase todos os aspectos da vida política, económica e cultura. Para os dirigentes, de modo geral, a moral e ética são valores do passado. A fronteira entre o bem e o mal é ténue, quase inexistente.

Quase todos eles se guiam, nas suas acções governativas ou administrativas, pelo princípio do vale tudo – encher os bolsos com dinheiro roubado, rodear-se de bens surripiados ao povo. Chegar ao poder, exercê-lo e mantê-lo socorrendo-se de todos os meios, incluindo os ilegais como o enchimento de urnas com votos falsos. Já não se envergonham de nada, no dia de votação  os boletins de voto assinalados andavam a granel nas assembleias de voto. Alguns dos implicados orgulham-se de terem introduzidos mais 70 boletins, o que reforçou a vitória da Frelimo e do seu candidato.

Vamo-nos apercebendo de que o nosso Estado foi assaltado por um bando de criminosos. As notícias que nos chegam dos Estados Unidos são constrangedores e arrepiantes. Como nos roubaram assim tanto?! Fazendo-se passar em nosso nome, os bandidos roubaram e, hoje, argumentando que querem estar bem no mercado financeiro, obrigam o povo a pagar os fundos de que, ilegalmente, beneficiaram, construíram condomínios e casas de praia. Compraram palacetes para as suas amantes, pelas capitais europeias, obtiveram viaturas modernas e de grande cilindrada.

Passam fins-de-semana no estrangeiro a desfrutarem dos dinheiros roubados, viajando em classe executiva,  enquanto os seus meninos gingam com carros de luxo, nas nossas ruas, perante os nossos olhos impotentes, e,mais grave ainda, protegidos pela Polícia que recebe o salário a partir dos impostos cidadãos espoliados pelas dívidas ocultas. Por serem bastante vulneráveis à corrupção, tomamos conhecimento de que estavam a ser agraciados, pelos seus comparsas estrangeiros, por caixas e caixas de vinho raro, para satisfazer a alma dos bandidos. Chamavam-se de pai e filho entre si (Armando Guebuza e Jean Boustani) devido à cumplicidade existente na arte de bem roubar ao povo.

Sabemos que um dos filhos do papá, que nem é funcionário do Estado, recebeu cerca de 60 milhões de dólares de comissões da roubalheira e para salvar a pele dessa quadrilha de bandidos, a Procuradoria-Geral da República (PGR) de Moçambique codificou os nomes desses gatunos e catraias para que o povo não os pudesse identificar. O pouco que, hoje, sabemos do que os caloteiros fizeram contra o povo se deve à Polícia norte-americana, FBI, e não às nossas autoridades, que tudo fazem para que o povo não saiba de nada. Agora que o povo já sabe tudo, a PGR pode até jogar o relatório da Kroll para o fundo do mar. Pode ser hoje ou amanhã ou quando quiser.

O povo já sabe o que a quadrilha fez e quanto dinheiro cada um amealhou e sabe-se as razões que levam as autoridades a insistirem em pagar as dívidas que os outros contraíram: vários dos actuais governantes estão implicados nas dívidas ocultas, incluindo o “New Man” no código das transacções financeiras reveladas no julgamento a que o “filho do Papá” está sujeito nos Estados Unidos. O valentão que expulsou do seu gabinete de trabalho a equipa da Kroll encaixou 60 milhões de dólares só para si. Aqui reside a razão fundamental de tanta arrogância que quis transmitir como se tratasse de grande guardião dos segredos de Estado. Estava, afinal, a esconder o produto do roubo. É um grupo muito perigoso que vendeu a pátria por interesses egoístas.

Somos um país atípico, em todo o mundo, em que até os serviços secretos defraudam o Estado. A prática comum, em outros países, tem sido a defesa dos interesses do Estado pelos serviços secretos. No nosso caso, as coisas aconteceram de modo inverso – o golpe contra a economia nacional, burla e calote foi concebido e operacionalizado por agentes dos serviços secretos.

Retrocedemos em todos os aspectos da vida política e económica.  Podemos dispensar as eleições porque não têm nada de eleições, pois se trata de uma grande batota que visa manter no poder o mesmo partido que nos desgoverna desde que chegámos à independência. Gasta-se muito dinheiro e o Governo lança peditórios para, no fim, termos um festival de enchimentos de urnas. Para que servem as eleições, se o método que se adopta não tem nada a ver com eleições? Que engane a comunidade internacional que tanto gosta de fingir que, entre os moçambicanos, está tudo bem e corre para saudar e aplaudir falcatruas.

A vontade e a intenção da Frelimo é de retornar ao monopartidarismo quase selvagem que levou muitos países ao descalabro económico e social. Estamos, sem qualquer margem para dúvidas,  a caminho do monopartidarismo. A Frelimo quer, a qualquer preço, extinguir  o multipartidarismo. Quer ser ela, somente, o actor político, no nosso país. Ao agir de tal modo, a Frelimo está a lançar à terra a semente da discórdia que pode gerar, em breve, conflitos que vão  desaguar em guerras, como aconteceu num passado recente.

Nós repudiarmos os resultados eleitorais, não precisamos de esperar que sejam proclamados pelo Conselho Constitucional por sabermos que este órgão não vai fazer nada diferente do Secretariado Técnico de Administração Eleitoral e da Comissão Nacional de Eleições. O Conselho Constitucional vai, isso sim, carimbar a vitória sufocante, asfixiante e retumbante da Frelimo e do seu candidato, sem ter em conta os enchimentos ocorridos. Não pactuamos com aldrabices nem com fantochadas. Não aceitemos retroceder.

A Bolívia levantou-se contra a fraude por ter havido, apenas, dois mil votos falsos enquanto nós ficamos quietos embora tivessem ocorrido milhões de votos falsos. O Malawi, país nosso vizinho, não deixa o presidente eleito por fraude tomar posse e nós cá vamos comer e dançar para festejar a tomada de posse de um presidente, evidentemente, fraudulento.

Terminamos, como uma tal família de artistas das dívidas inconstitucionais, dizendo: “Papá, os investimentos para todos os projectos estão garantidos”, Fine my, son”.Coisas de vergonha! Jean Boustani escapou, porém, o mesmo já não se pode dizer dos nossos gatunos que roubaram e estão a obrigar o povo a pagar. Por isso, é nossa esperança e desejo que os nossos ladrões sejam julgados nos Estados Unidos onde o partido no poder não manda em tribunais.

O povo está entregue à bicharada que, a olhos vistos, nos estão devorando. Moçambique arrisca-se a um novo conflito, caso os resultados das eleições sejam validados, avisa Ossufo Momade, líder da Renamo, e nós reiteramos o alerta que a Frelimo está a empurrar o país para novos conflitos e guerras fratricidas. A acontecer isso, os mesmos indivíduos vão escalar fábricas de armamentos e com tal negócio, voltarão a empanturrar as suas contas bancárias. (Edwin Hounnou)

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