De mal a pior!

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Beira (Canalmoz) – Se formos a ver com atenção o manifesto do partido Frelimo e do seu candidato às eleições de 2015, comparando-o com o de  2019, podemos chegar à conclusão de que se trata de um simples decalque. A única diferença, de fundo, que podemos observar nos dois casos consiste no facto de as estratégias de chegar ao poder serem, basicamente, um pouco diferentes. Havia, no primeiro, uma certa dose de honestidade enquanto no segundo estiveram presentes todos indícios criminais ainda que organizados pelos órgãos eleitorais – Secretariado Técnico de Administração Eleitoral e Conselho Nacional de Eleições – e abençoados pelo Conselho Constitucional que fez vista grossa ao entorpecimento da vontade popular que tanto clama pela mudança.

Em outros quadrantes do mundo onde os povos se orgulham de viver em sistemas democráticos, os membros dos órgãos eleitorais do nosso país seriam, um a um, recolhidos para cadeia e sujeitos a responderem em juízo pelos crimes que cometeram ao perverterem o sentido do voto do povo. Em Moçambique, como o sistema democrático é uma grande mentira, ele consta, apenas, no papel e serve para agradar à chamada comunidade internacional doadora, vivemos de fantochada em fantochada, desvirtuando todo o sentido de uma democracia de facto é de eleições. Os enchimentos de urnas, a distribuição por eleitores e simpatizantes de boletins pré-indicados e a manipulação policial não fazem parte de eleições livres, justas e transparentes.

O Estado de Direito e Democrático, onde a separação dos três poderes – Legislativo, Judicial e Executivo – são independentes e interdependentes é uma miragem. Ficamos boquiabertos quando Verónica Macamo a saltar da presidência da Assembleia da República,  um órgão de soberania,  para a pasta dos Negócios Estrangeiros e Cooperação do novo governo,  outro órgão de soberania,  em menos de 72 horas. As dúvidas que ainda nos restavam foram dissipadas. A Frelimo é Poder Legislativo, Judicial, Executivo, para além de se proclamar “Força da Mudança”, são todos a mesma pessoa.

Nada nos espantará quando a Presidente do Conselho Constitucional, no fim do seu mandato, venha a ser conduzida para o governo, pelos “bons serviços prestados” ao “glorioso partido”. O Presidente do Tribunal Supremo terá, também, o seu lugar no governo da Frelimo. Ninguém vai à reforma, todos são iguais entre si e a separação dos três poderes é uma miragem. Eles não se envergonham do que fazem. É uma família interdepende que só proclama a separação de poderes para agradar ao Ocidente que finge ser amigo do povo moçambicano enquanto gosta, apenas, dos nossos recursos.

Alguns de nós, por razões pouco claras, depositam a esperança em americanos, chineses e europeus julgando a voz deles possa, alguma vez, chamar à razão aqueles que nos roubam e, quando discordamos dos seus desígnios, soltam os seus esquadrões da morte, ora conhecidos como “aproveitadores” para nos matarem. Esses não são amigos do nosso povo nem do nosso país. Eles são amigos dos nossos recursos como gás natural, areias pesadas, grafite, rubis e da nossa madeira. A liberdade foi, é e sempre será, pelos séculos fora, uma conquista dos povos. Nunca será uma doação de quem quer que seja. Não foi por vontade dos antigos colonos que ficámos independentes nem será da vontade dos comunistas milionários que teremos a liberdade. O povo tem que lutar para valorizar o sacrifício dos que deram as suas vidas pela independência.

Não esperemos pela Frelimo porque este nos quer ver sempre como maravilhoso povo que aceita as suas trapaças. A 25 de Junho de 1975, o povo saudou, de forma efusiva, a chegada da independência nacional e liberdade, mas essa euforia foi de pouca duração  porque o que aconteceu foi a troca de colono estrangeiro de cor branca pelo colono nacional de cor preta. O sentido da independência foi adiado. Saímos do ciclo de governação 2015-2019 caracterizado pela revelação das dívidas ocultas de 2,2 mil milhões de dólares a bancos estrangeiros, contraídas em nome do povo e distribuídos pelas elites frelimistas, suas  esposas, filhos e amigos e o consequente fecho do apoio financeiro externo enquanto isso o massacre de civis se intensificou.

Nesse mesmo período, assistimos  ao recrudescer da intolerância política, da exclusão económica e social pela parte do regime da Frelimo. Se o Apartheid discriminava os cidadãos sul-africanos com base na cor da pele, o “apartheid” do regime da Frelimo fundamenta-se na ideologia política. Aquele que não seja da Frelimo está riscado de todas as oportunidades económicas, de emprego nas instituições públicas e nas empresas participadas pelo Estado. Esta prática ainda prevalece até aos dias de hoje.

Eles deflagraram uma nova guerra contra o povo e constituíram os esquadrões da morte para capturarem e assassinaram membros mais activos da oposição, da classe dos intelectuais, jornalistas e académicos passaram a constituir seus alvos preferidos. A prioridade dos radicais da Frelimo já não era governar bem o povo, mas passou a ser silenciar os que “falam demais”, tirando a vida a uns e quebrando membros a outros. As emboscadas às caravanas de Afonso Dhlakama, e o cerco à  sua residência, na Beira, dá para não acreditar nos tipos que governam o nosso país. Eles vêem nas armas a evolução dos problemas políticos porque a guerra, qualquer que ela seja, é uma fonte inesgotável de enriquecimento fácil. Eles evitam dialogar como gente da mesma pátria ainda que digam, em voz alta, que estão disponíveis ao diálogo. Preferem as prisões ao diálogo.

“As boas ideias não têm cor partidária”, disse Filipe Nyusi, em 2015. É um refrão para tentar convencer os mais distraídos porque a seguir a isso vimos uma perseguição feroz à oposição. No Parlamento, todas as iniciativas de lei da oposição são chumbadas pela bancada maioritária. O mesmo voltou a repetir, este ano, para não se temer o pensar diferente porque é uma riqueza. Na verdade, este é o pensamento de gente civilizada, todavia, o que vivemos é o contrário. É um grande perigo alguém não assumir o pensamento oficial. Já voltámos aos tempos de pensamento único. O pensar diferente continua a ser um perigo, entre nós, que pode levar à desgraça de uma família. Que o diga os que pensam diferente quanto sofrem devido ao seu pensar.

A figura de secretário de Estado nas províncias não lembra o diabo! A bala saiu pela culatra porque a Frelimo impôs esta figura pálida de secretário de Estado para impedir a governação da oposição, que estava eminente e foi impedida pela grande fraude eleitoral. Agora que a Frelimo, através de uma megafraude, ganhou em todas as províncias, o secretário de Estado aparece como uma espinha na garganta. A quem vai fazer barreira? Como se livrar de uma estrutura nula e desnecessária? O governador-eleito, nem que seja por enchimentos, não passa de um simples marionete, desprovido de qualquer poder, um corta-fitas. A sua escolta e protecção já mostram que não é nada. (Edwin Hounnou)

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