João Ribeiro

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Beira (Canalmoz) – Eu já conhecera Felício antes, no Chimoio, onde o entrevistara no palácio de governador. Naquela manhã primaveril, 8 horas, como combinado, Felício me aguardava pontualmente à porta do quintal do palácio. Com uma vista para a estrada e o muro dez metros abaixo do peito, muito de longe, divisei-o, sem aquele aparato de segurança comum entre os membros do Governo de Moçambique. Ele próprio abriu-me o portão e encaminhou-me para a sala. Sentáramos os dois à mesa e lá fizemos o nosso pequeno-almoço. Fui a Chimoio exactamente a pretexto de o entrevistar, pois Felício tornara-se famoso no seu pragmatismo de luta anticorrupção, ao despoletar o “escândalo da boiada”.

Eu não sabia que logo depois Felício seria governador de Sofala e traria consigo para Sofala um admirável, abnegado e incansável homem, o João Ribeiro. Enquanto o recebiam com pompa e circunstância algures na “Cerâmica”, comentava-se sobre quais seriam as figuras que formariam o seu governo. Foi o que sucedeu, emergiram jovens tecnocratas, dentre os quais se destacava o João Ribeiro, do qual me tornei amigo. Foi assim: Rui Valadares pedira-me que secretariasse um seminário organizado pela APROS, projecto da Cooperação Austríaca, no Hotel Embaixador. O elemento focal do seminário era a Direcção Provincial da Agricultura, dirigida por Ribeiro. Neste seminário conheci João Ribeiro e tornámo-nos rapidamente bons amigos. A motivação de Ribeiro era a luta anticorrupção e contava com a anuência e beneplácito de Felício.

Felício trouxe João Ribeiro de Manica. Em Manica, Ribeiro era um homem prodígio, à frente dos serviços provinciais de floresta e fauna bravia. Uma vez lá, Ribeiro se tornara um mito, um nacionalista e patriota na verdadeira acepção da palavra. Perseguia os madeireiros furtivos. Com a sua implacabilidade na luta contra os madeireiros furtivos, Ribeiro chegava a viajar até aos sítios mais recônditos de Manica, neutralizando infractores. Um dos méritos de Felício e Ribeiro em Sofala foi a declaração de que nenhuma madeira em toro podia ser exportada para fora do país, não sem antes ser processada. O que levou à emergência de muitas serrações e à criação de centenas de postos de emprego na província de Sofala. Por altura deste governo arrojado prenderam-se muito toro no porto da Beira. É dessa nata de dirigentes com espírito criativo e impositivo que o país merece, merece. Este é um dos atributos ou legados da passagem de Ribeiro por Sofala e que me leva a homenageá-lo, pois, mau grado, domingo passado comunicaram-me da sua morte, o que me deixou consternado.

Enquanto director provincial de agricultura de Sofala, Ribeiro confiara em minhas mãos parte dos seus dossiês. Por aquelas alturas foram temas de capa do “Savana”. O que nos aproximou sobremaneira. O próprio Ribeiro me telefonava para oferecer-me temas de capa, envolvendo tubarões locais. Lá eu ia a correr para o seu gabinete, no edifício do governo e lá se me dispunha de documentos e informação relevante e imbatível sobre assuntos delicados, prejudiciais ao Estado. Era nisso que estávamos unidos. Era nisso que nos revíamos, embora ele fosse da FRELIMO desde longínquos anos 70 e nessa qualidade fez a tropa do lado das FPLM, quando dentro do país, pela conexão dos pais com as raízes portuguesas, seguia-se um movimento em direcção ao êxodo. João Ribeiro optou pela nacionalidade moçambicana, em jovem dormia nas palhotas. Em Manica, fazia longas caminhadas por Penhalonga e Tshazuca. Tobias Dai, que fora seu comandante, conhece-o perfeitamente. Ribeiro domesticou o temível Domingos Fondo. Isto foi importante para definir o perfil e o carácter de Ribeiro. Era vertical e implacável, apesar de afável, social e bonacheirão. Ribeiro era quem me telefonava volta e meia, para a tarefa sazonal de denunciar a corrupção. Poucas vezes estivemos juntos num café, tirando a demasia de um encontro que marcáramos no Clube Náutico, já por alturas em que o nomearam Director Nacional do INGC. Por certo, tínhamos as nossas cumplicidades. Quando me afastei do jornalismo falei com ele para integrar um competente professor “doctor” moçambicano, Hélder Augusto, no INGC, e Ribeiro, que também passara por uma formação no Brasil, reconheceu o mérito de Hélder. Também falei com ele para não marginalizar o competente L.P., caído em desgraça por causa de um vídeo que se tornou viral.

Ribeiro era um homem de bem, que me marcou profundamente. O facto de nos últimos tempos eu estar a viajar demasiadamente cortou-nos a comunicação. Só com o seu passamento despertei-me da modorra. Incrivelmente, há dois anos que não nos falávamos. Soube que Ribeiro se tornara paraplégico devido ao “stresse”. O seu sentido de disciplina não lhe permitiu um espaço de relaxamento e assim adoeceu, deixando Helena Palelane e mais duas filhas inconsoláveis. Também a outros doze irmãos.

Que Deus lhe dê o eterno descanso entre o esplendor da luz perpétua! Amén! (Adelino Timóteo)

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