Menino Mesa

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Beira (CanalMoz) – Junto à casa do Abel Barca, havia uma casa precária. Antiga. Era ali que moravam os irmãos Fernando Luís dos Apitos e o Ziquibo. Funcionava ali um pequeno bazar, que era a sede social e a origem da designação que tomara a equipa. Nós os miúdos, quando assim, corríamos roda batida para o largo, onde se jogava ao dois-muda-quatro-acaba, à massacala ou à bola cautchu. Empoleirados no muro, que cercava a Escola Nova e o Centro Social do bairro, aguardávamos o início da partida. E depois vinha um ou outro dos potenciais contendores a interpor pedidos:

Ei puto segura a minha camisa!

Ei tu és do Simba, e nada de segurar coisas dos Bazareiros, pois, se seguras, há cuxo-cuxo nos pertences deles e pegamos azar, logo a equipa perde e não te damos fruta-gelo nem os bolinhos fiosses.

Sim, estes gajos, às vezes, vão aos vovôs buscar talismãs. Coisas de mitombos.

A partida iniciava. Podia levar quatro horas. Nos derradeiros momentos, chegava ao rubro. Os Bazareiros, equipa do Abel Barca, composta por Lucas, Ibe, tinha sempre o reforço do Mera, do Faruk, do Kim e do Nino. E quando isso se passava, o Simão, o Angito, o Pepe, o Zé João, o Carlitos, o Israel, o João Cazembe e o Luís Munguambe faziam o time de os Simba. A emoção chegava ao rubro. Começava a escurecer, com os dois times empatados. Lá quase para a noite adentro, começava a chegar, desde o fundo da Rua 9, o senhor Marcos, o velho do Rui Marcos, do Landocha, de bata azul e a cambalear e a cantarolar ao longe:

Mabandido ó, mabandido ó…

Mabandido ó, mabandido ó…

A criançada coroava com ele. O velho Marcos trabalhava na casa mortuária. Tinha o costume de beber, para evadir-se da realidade. Diziam que a canção fora ele que a forjara, acossado por uma mania de perseguição. Via bandidos em todos, depois das partidas de copos, a que ele se entregava, nos cajueiros. Alcançava a Rua 18. Ficava a assistir à renhida partida, onde os contendores se acusavam mutuamente de usarem talismãs na baliza, pois faltava a precisão, não fosse a nulidade do poder de concretização dos avançados de um ou do outro lado. O Simão chutava, e a bola batia na barra de caniço, que era cuspida para fora das quatro linhas. Um dos adversários rematava para a figura do Beto da Rua 1. Quando a paciência beneditina lhes atingia o limite, as acusações mútuas entre os contendores subiam de tom, ora porque havia um de uma equipa ou de outra atrás da baliza contrária, ora porque alguém tinha amanhecido e colocado cuxo-cuxo no campo. Particularmente, quando o desgaste atingia os corpos, e um e outro jogador escorregasse, no terreno saibroso.

Se fosse nos meus tempos, eu não falhava assim, coscuvilhava o Mabandido, tal como chamávamos ao velho Marcos, que, do lado da bancada, era óptimo futebolista. Era domina, mete na confusão e golo.

O velho Mabandido era uma figura carismática pela positiva, diferentemente do Tio Manuel. Envergava roupas formais, casaco e gravata. Usava um penteado tipo punk, com uma ranhura, da frente para trás, ao canto superior esquerdo, ao que a minha mãe denominava caminho para a casa de banho. Era o Nat King Cole de então.

Lembro-me muito bem no que, um dia, deu este tipo de partida prolongada. O Fedinho tinha sido orientado pela mãe a comprar algo, mas resolveu apostar o dinheiro ao dois-muda-quatro-acaba. A mãe, há duas horas à espera, lá da Rua 9, com as mãos na cintura, olhava para o lado oposto em relação ao baldio da Rua 18. Tentava, desde ali, descortinar o filho, entre os que vinham da Cooperativa 25 de Junho, cujo guarda, baixinho, apelidávamos Menino Mesa, e que, apesar de já homenzarrão, era alvo das nossas intrigas, porque caçava gala-galas, vulgo mbenembes.

Menino Mesa come mbenembe!

Ele não se magoava. Replicava:

Eu sou um menino de catorze anos.

Voltando à estória: o Fedinho, que já a tinha visto aflitiva, medrava. Mandara recados com os irmãos que ele já ia a caminho. Disseram-me que a mãe do Fedinho tinha expectativa, sobre o que ele andaria a comprar, para o reabastecimento familiar daquele mês. Ele não sabia como se desenvencilhar, porque aplicara o dinheiro no dois-muda-quatro-acaba. Pior, a equipa do Fedinho a perder três a dois para o Leónidas bate-bate. E o Fedinho a chutar a massacala, a bola de trapos, com toda a raiva, mas a bola a não obedecer, e depois ele a mandar vir, ora com o Mandongane ora com o Adolfo, depois com o Rodrigues, que, pressionado, chutara no chão e contraíra fractura no mindinho do pé. Sem saber dizer que fracturara o dedo, gemia:

Ai desloquei a minha unha! Está a doer!

E a plateia, na alegria geral, despropositada, contagiada com aquele manducar da gramática. Mas o Rodrigues estava distante daquela risada, e então já se dispunha a sair do campo a pé-coxinho, a chorar copiosamente.

Ó Rodrigues não se diz desloquei a unha, mas sim o dedo, o Dimingo Coxo corrigiu-o.

O meu dedo rasgou-se; tem dói-dói; Vão chamar minha pai!– apelava o aflitivo Rodrigues. Lourenço, o irmão, e o Maninho da Rua 7 correram em seu socorro.

Por aquelas alturas, a mãe do Fedinho já varria a parte frontal do quintal. A partida interrompida, e ela obcecada com a tal ideia de que daí a um instante lá iria ter o filho, saído da Cooperativa, onde se compravam produtos da primeira necessidade, mediante apresentação de um cartão de agregado familiar. Quando o árbitro apitou, a partida foi reatada. Vi-a contrariada. Foi quando pareceu dirigir-se ao campo do jogo. O Fedinho estava cada vez mais raivoso. De repente, o Orlando tomou a bola, driblou o Fedinho, que se estatelou no chão, e a rir e a espernear-se, de tanta raiva. O árbitro quase engoliu o apito, a soltar uma gargalhada. A seguir o Orlando driblou simultaneamente o Frankilin, o Zito irmão do Escrivão, que era o último homem na defensiva, e, quando, por fim, o Mingo saiu da baliza, o Orlando deu um pequeno toque, e a bola desviou-se da trajectória, tabelando no muro. Apanhou-a o Inuane, que estava a jogar junto ao Mingo, e daí foi golo. O Fedinho sabia o que aquilo lhe iria custar. Levantou-se do chão, e dirigiu-se ao Ngalengale, a reclamar fora-de-jogo, mas Ngalengale apitara golo. Aí vimos o Fedinho irado a reclamar faltas sonegadas pelo árbitro. Gerou-se um ruidoso clima de protesto, pois a partida terminava daquele modo, e o Fedinho que reclamava, agora segurava na mão do Ngalengale, para que este não entregasse o dinheiro ao Inuane, o capitão adversário. Lá com a ajuda do Pascoal, que sabia no que daria aquilo, fez pressão sobre a mão direita do Ngalengale, que cedeu. O Fedinho tomou o dinheiro. Quando a mãe chegou, ele já tinha dado às de vila Diogo, engolido pelo breu da noite. (Adelino Timóteo)

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