O dia em que uma cabeça de hipopótamo visitou Marcelino

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Beira (Canalmoz) – O entusiasmo e o fervor popular, em relação ao Mulato Duro, não terminaram ainda, pois reinava a febre e o ânimo, quando naqueles dias se versou que um hipopótamo que se transforma em pessoa chegou às portas do bairro, depois de ter viajado pela cidade, desde a costa à contracosta, deixando um rescaldo de três militares mortos e mais três raparigas virgens, as quais estuprou com uma raiva paquidérmica. Era um caso estranho, para uma cidade que não tem curso de água doce, onde ele pudesse sobreviver. Teria voado? Reza a estória: o paquiderme emergiu na zona da Dama, na Baía de Massanjane, na foz do Rio Púnguè. Os pescadores que ali pescam à linha e em canoas asseguram que não o viram. Atravessou sorrateiramente os becos da Munhava, da Inhamudima, mas foi nas Palmeiras II que a segurança do Estado o detectou, antes de se infiltrar no seio do povo. As autoridades não concebiam como o hipotético inimigo que se tinha transformado naquele paquiderme conseguiu iludir os radares da vigilância, transpondo o alarme e o forte dispositivo de segurança, até vir parar cá à Rua Condestável, tão só a quinze metros da entrada da zona do Macurungo-cimento. Onde ele adquirira o talento de infiltrar? O hipotético inimigo estaria armado? Ninguém sabia: mas pelo que testemunhámos, o hipopótamo agiu como disfarçado emissário do inimigo. Estava determinado a guerrear. Galopou pelo referido trajecto sem alvoroçar, sem empanicar as populações nem os Grupos de Vigilância, vulgo GV’s. Descoberto no ex-Maristas, os milicianos lançaram-se aos disparos, com armas ligeiras e pesadas, em rajadas. O hipopótamo foi chocar com o muro frontal direito, que ficou destruído, não sem antes desviar para despistar os seus detractores, que lhe atiravam balas a matar. Dizem que era anti-bala. O animal pôs-se em debandada. Todo a esvair-se em sangue, entrou pelo descampado da lateral esquerda, atrás daquele estabelecimento de ensino, atravessou o ramal do rio Chiveve no local, entre o capim seco e a uma altura de metro e meio, após o que, através daquela zona pantanosa, foi dar-se ao Macurungo, onde o Miliciano Chote e o Ossumane foram, devida e previamente, alertados sobre a visita estranha do hipotético “inimigo disfarçado”. Os dois tinham já montado a anti-defesa, em prol do povo e das “nossas conquistas revolucionárias e socialistas” – nas palavras do Tchitcho.

Por todo o lado, por onde ele passara, o comentário era de que o bicho estava armado. Aproveitamento político? Alguém lhe vira a arma? Uns responderam afirmativamente, outros negativamente. Alguns o afirmaram, apenas por animosidade e leviandade. Pior, os mais incautos juravam que ele tinha uma G3, vulgo “Espera-Pouco” ou Kanhangulo, entre as pernas dos membros posteriores. O que aumentava a ira dos milicianos, pois para eles, conforme orientação do Tchitcho, “urgia neutralizarem eficazmente a manobra do transmutado e indocumentado inimigo”. Naquele dia, o Miliciano Chote e o companheiro fizeram-se às trincheiras, junto à rampa que dava para a Rua 4, na impiedosa posição de atirar para matar. O Miliciano Chote pareceu-me mais azedo do que o limão. As balas, na câmara. As cartucheiras metidas nos bolsos, à roda do colete à prova de bala. Eis quando um bicho enorme emergiu a correr, movendo com agilidade os músculos e a sua carne abundante. Escuro como a noite. A brilhar, da lama do ramal. Galopava mais rápido que o sol daquela manhã, levantando o matope solto do solo gretado. O diabo guiava-o. As patas curtas moviam-no graciosamente. O ar agitava-se, parecia um vendaval. A cauda achatada. Não parecia aquele animal de costumes brandos. O Miliciano Chote, atarantado, premiu o gatilho e disparou rajadas ao ar, como que buscando a rendição do inimigo disfarçado naquele animal. O Ossumane idem.  O Miliciano Chote tinha as rédeas. O primeiro tiro foi certeiro que o atingiu no bandulho. De súbito, o mamífero caiu estrondosa e lateralmente. Aí ficou a jazer, moribundo na berma direita da estrada. Os dois levantaram-se das posições e crivaram-no de balas.

Quando dele nos aproximámos, vimos aqueles caninos grandes que nos aterrorizaram a todos. Ninguém queria imaginar o que seria deles na carne humana. A curiosidade da maioria era testemunhar o hipopótamo a transformar-se num ser humano, que se dizia escondido, por detrás daquele disfarce. Outra curiosidade também tinha a ver com a arma de fogo que se dizia ter ele em sua posse.

A única coisa que ele tinha entre as pernas dos membros posteriores era o enorme bornal de escroto. Depois, os mais experientes asseguraram que ele tinha cá vindo parar, porque buscava milheirais e canaviais, pois ele não aproveitava com aquele mau ano de seca. Contava-se que viera do Rio Búzi, desflorara a espessa vegetação, até ao Rio Dama. Devia andar ressentido da seca e sem pasto, pois mesmo o canavial da fábrica de açúcar sofrera de depressão. Parecia faminto. Precisava de duzentos a trezentos quilos para abarrotar o estômago. Era manhã de domingo e os pescadores repousavam.

Ironia do destino: a fatalidade daquele que procurava abarrotar o estômago, com carne alheia, pode ter servido de apetite às potenciais vítimas. Foi o que aconteceu. Para trás ficou o estrago: o caniçado e o capim batido. Um monte de destruição: palhotas, mosaicos dos canteiros de batata-doce, panelas de barro, destilarias de nipa, potes e cabaças. Portanto, depois de inspeccionar o hipotético inimigo, o Tchitcho, zeloso, voltou-se para o mesmo e perguntou-lhe qual era a sua missão, mas ele não respondeu. A um pedido de exibição de documentos, permaneceu calado. Só poderia o mesmo estar a fazer tijolos. Daí aquele silêncio. Ordens hierárquicas vindas da Capital decidiram haver necessidade de abrir uma comissão de inquérito, para apurar responsabilidades, pois se suspeitava de alguma negligência da milícia e das forças armadas, que garantiam a vigilância. Daí a pouco, o secretário do bairro ordenou ao Miliciano Chote que esquartejasse o paquiderme a golpes de machado. Que encabeçasse a tarefa de distribuir de forma equitativa os dois mil quilos do animal, mas alertava-o da imperiosidade do cumprimento escrupuloso da regra “os dirigentes são os primeiros no sacrifício e os últimos no benefício”.

Miliciano Chote tirou o casquete e fez maquinalmente continência ao Tchitcho, em sinal de disciplina e obediência paramilitar. Aquele pantanal em pouco tempo ficou entupido de gente, com variedade de recipientes, alguns mesmo de fazer corar de vergonha, porque tanta era a indigência. Mas a recomendação do rateamento não foi cumprida, segundo aquela ordem superior. Impotentes, vimos umas cinco vezes o Menino Mesa a levar uma barra de tracção humana, daquelas que se empregam nas obras de construção, com a carne do mbhvuu, nome ndau para aquele bicho. Os chefes de dez casas faziam o mesmo. O Miliciano Chote, que se mostrou corrompido pela hierarquia, guardou para si o pénis do animal, que disse servir para amuleto contra a impotência, sinal de que tinha alguma razão escondida, pois só vi as senhoras do bairro a advertirem as filhas do perigo que ele poderia vir a ser. A cabeça do mbhvuu, a quatro golpadas de catana, foi destroncada e sorrateiramente levada num saco de ráfia. Ossumane pô-la num carro da administração do Estado. Dizem que a encomenda foi parar ao Palácio Cor-de-rosa, a residência oficial do Ministro-Residente, de Marcelino dos Santos, o que suscitou ruidosos protestos de gente esclarecida, já que aquela autoridade estava a ser primeira no benefício e última no sacrifício, de mais a mais estaria a fazê-lo por capricho, conquanto pudesse comprar de tudo na Loja dos Dirigentes, sem ter que disputar a misérrima carne do povo. O camarada Marra, secretário do comité da cidade, justificou a visita com o dar um informe da resposta pronta da auto-defesa, em prol da Nação. Marcelino olhou com desdém o troféu exibido e mandou-o retirar-se do Palácio. Camarada Marra engoliu a seco o desdém do Ministro-Residente. Cabisbaixo saiu do Palácio Cor-de-rosa com a cabeça do mbhvuu. No dia seguinte, o mercado do bairro, na Rua 15, na fachada lateral esquerda da Cooperativa 25 de Junho, em frente à casa do Velasco, inundou-se de carne e de derivados de amuletos do mesmo, para a sorte na consumação do amor  e virilidade. O Menino Mesa era o vendedor-biscateiro e o Miliciano Chote o encarregado de manter a ordem e vigilância, por isso tinha em mão um chicote de pele e rabo de hipopótamo entrançados. Dizia o Menino Mesa tratar-se de carne de mbenembe, mas já lá se sabia que era a venda de gato por lebre. O que provocou uma ruidosa troça entre a criançada, que dele passou a caçoar:

“Menino Mesa come mbenembe!”

“Menino Mesa come mbenembe!”

“Menino Mesa come mbenembe!” (Adelino Timóteo)

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