Al-Shabab passeia a sua classe!

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Beira (CanalMoz) – O grupo terrorista Al-Shabab, que opera na província de Cabo Delgado, está a passear a sua classe à vista de todos. Nem a polícia nem as FADM fazem frente aos bandidos. Matam as populações,  decapitam e cortam em pedaços as suas vítimas e nada lhes acontece e, ainda por cima, mandam recados para chamarem pelas FDS virem ao local a fim de medirem forças. Tudo fazem nas calmas e só se retiram quando bem lhes apetece e não por  temer a intervenção das forças governamentais porque esta, de modo geral, não acontece. Eles agem sem qualquer tipo de medo.

Aquilo que as forças governamentais faziam, de perseguir o inimigo até às últimas consequências – um combate que inclui mortes e captura de material, já não se faz mais. Naqueles tempos, os comandantes, em toda a linha de hierarquia, se ocupavam de estudar o inimigo, não havia outra ocupação para distrair as atenções dos comandantes e operativos. Nenhum comandante ou ministro era dono de nada, nem de minas, nem de portos. Combater o inimigo era a única e exclusiva ocupação de todos.

Aquele exército temido pela soldadesca rodesiana é atropelada por terroristas de um suposto Estado Islâmico que move uma guerra sem sentido contra Moçambique que peca por as entranhas da sua terra conter riquezas naturais. A guerra que iniciou em Outubro de 2017 visa inviabilizar a exploração do gás de modo a beneficiar as populações moçambicanas. Os terroristas nunca puseram em causa o regime ilegítimo da Frelimo nem o governo ditatorial que limita as liberdades dos cidadãos. Não questionam como a Frelimo vence as eleições sem ser votado. Não estão contra o saque dos recursos naturais por um grupo de pessoas. Tudo isso não conta para a guerra que nos movem. Não dizem o que pretendem atingir nem as razões desta guerra que se quer de cariz religiosa é. O tempo de guerras santas – cruzadas ou jihadistas – já passou.

A guerra está a alastrar-se a uma velocidade quase estonteante. O governo cometeu vários erros que muito bem poderiam ser evitados e teria sufocado os jihadistas logo à  nascença, mas fez ouvidos de mercador. A guerra começou como uma simples reivindicação religiosa nas mesquitas de Pemba entre os crentes islâmicos. O governo foi, muitas vezes, alertado sobre novas “teorias”, incluindo acerca de treinos de marcha unida de jovens, nas praias e recintos de mesquitas, porém o governo não deu ouvidos, alegadamente para ressuscitar lembranças de um passado de perseguição a religiões.

As reivindicações foram crescendo e, aos poucos, introduziram armas nas mesquitas usadas no ataque à esquadra policial, Mocímboa da Praia. Quando o governo acordou, já era tarde demais. Não acordou completamente porque, ao invés de combater com eficácia os atacantes da Mocímboa da Praia, foi fazendo patrulhas paliativas, sem mérito no teatro das operações militares. Esta postura deixou os bandidos mais animados e transmitindo a ideia de que era fértil para acções mais profundas do banditismo.

Assim, estava instalado um ambiente para a prossecução da guerra que mata e destrói Cabo Delgado. Os “especialistas” da mentira que tragam as suas teorias, mas é a verdade que pudemos  constatar nas reflexões que realizamos sobre a guerra dos bandidos. De cada vez que nos deslocamos a Cabo Delgado – note-se que trabalhamos sem chamar a atenção dos policiais, militares e autoridades civis para não  sermos presos –, as nossas apreensões sobem de nível porque notamos que a guerra se move num plano inclinado, sem qualquer obstáculo  considerável pela frente.

O governo tudo faz para esconder a guerra, ameaça e prende jornalistas para não publicar notícias catastróficas do conflito. Temos colegas que passaram meses nas cadeias do regime por terem sido surpreendidos com “laptop” ou um bloco de notas. Sempre que vamos a Cabo Delgado, não levamos ao campo “laptop”, máquina fotográfica ou um bloco de notas, porque esses instrumentos dão um sinal de que se trata de um repórter e logo dá direito à detenção imediata e acusado de estar a fazer espionagem a favor do inimigo. É muito arriscado fazer reportagem em Cabo Delgado, porque há um estado de sítio não declarado, e o inimigo é o jornalista. O que Julião João Cumbane, um famigerado G40, recentemente premiado com o cargo de director do Parque Tecnológico, propôs contra os jornalistas que noticiam a guerra, medidas extralegais que já estão em curso em Cabo Delgado.

O executivo de Filipe Nyusi deixou de prestar atenção à situação da guerra e passou a perseguir jornalistas que procuram notícias da guerra a fim de alertar o mundo. Virou os canos das suas armas contra jornalistas que buscam a verdade. O inimigo passou a ser o jornalista e não os terroristas que podem fazer fracassar os projectos da exploração de gás, petróleo e demais minerais e adiando o sonho dos moçambicanos que vêem nos seus recursos uma ponte para se safarem da pobreza.

O governo deve ser mais proactivo no combate ao Al-Shabab. Há informações de que as aldeias continuam sendo queimadas, e as populações vão se aglomerando nas vilas-sede de distrito, submetidas à fome, cólera e dezenas de milhares de adolescentes fora da escola, comprometendo o seu futuro. Depois do ataque de Bilibiza, vimos, em Pemba, professoras procurando abrigo. Disseram-nos que não podiam continuar a viver e a trabalhar naquele Posto Administrativo porque correm o risco de serem assassinadas.

A passividade das Forças de Defesa e Segurança é bastante preocupante. Aparecem nas redes sociais imagens irrefutáveis de bandidos trajados da farda policial e militar das forças governamentais, munidos de AKM, com viaturas da polícia e carros blindados capturados. Uma fonte que ouvimos, em Cabo Delgado, disse que, há um ano, os bandidos, num grupo de 30 homens, 29 traziam apenas catanas e apenas um estava com arma, hoje a proporção está invertida.

Não dizemos que todas as armas que os bandidos trazem tenham sido capturadas às forças de defesa e segurança, mas, o “emponderamento” é evidente. Acreditamos que algumas dessas armas chegam-lhes de fora. Entram nos quartéis e massacram tropas entrincheiradas como as imagens das redes sociais têm mostrado. São jovens na flor da vida que morrem, e isso deve forçar o governo a procurar outras sinergias. Não pode continuar a esconder o crocodilo debaixo da cama, como tem feito. O Al-Shabab compromete o futuro do país, logo, o governo deve parar de fingir que  está tudo bem.

Afirmamos, pesando bem as nossas palavras, que, se as FPLM tivessem combatido a tropa colonial tal como fazem as FDS, só chegaríamos à independência nacional depois de 100 anos de guerra. Se a guerrilha da Renamo tivesse movido uma guerra nos moldes tão brandos contra  as forças governamentais como as FDS defendem Cabo Delgado, o comunismo estaria, até ao presente momento, a florir e com os seus frutos nefastos em todas as nossas famílias. Os bandidos não passeiam a sua classe pela superioridade militar, mas por causa da suavidade como fazem ou deixam de fazer as operações. (Edwin Hounnou)

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