Filme de apocalipse

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Beira (Canalmoz) As notícias que nos chegam de Cabo Delgado sobre as destruições de infraestruturas, assaltos aos quartéis, comandos policiais e chacinas das populações por terroristas do Al-Shabab não são nada animadoras. A magnitude dos acontecimentos ultrapassao cenário desenhado pelos ministros do Interior, Amade  Miquidade, e da Defesa Nacional, Jaime Neto, na sua conferência de imprensa conjunta na qual parece terem faltado à verdade aos moçambicanos ao anunciarem vitórias sobre os terroristas nunca antes vistas.

Em menos de um mês, os ministros anunciaram, no dia 28 de Abril, que as Forças de Defesa e Segurança (FDS)puseram fora de combate 129 terroristas. Pode-se acreditar que as FDS estiveram envolvidas em grandes combates depois das vergonhosas fugas que as forças do Governo faziam sempre que os terroristas aparecessem no terreno.

Os assaltos às vilas de Mocímboa da Praia, Quissanga e Muidumbe não nos deixam mentir. A aparente mudança na postura combativa das FDS seria, sem dúvida, de aplaudir. Um olhar crítico sobre os acontecimentos de Cabo Delgado pode induzir-nos a outras conclusões. Vai ser sempre assim, ou é sol de pouca dura? Nós nos batemos por soluções permanentes dos problemas que apoquentam o país. Por onde andava a bravura que parece caracterizar as tropas? Houve magia para infundir a coragem nos militares? Alguém cria condições materiais e morais para aquela “moleza” das tropas.

Orlando Madumane, porta-voz do Comando-geral da Polícia da República de Moçambique, anunciou, no dia 8 de Abril, que os insurgentes haviam assassinado 52 jovens, em Xitaxi, distrito de Muidumbe, porque se recusaram a integrar o grupo dos malfeitores. O ministro do Interior, Amade Miquidade, na companha do ministro da Defesa Nacional, Jaime Neto, disse que “no dia 7 de Abril, foram abatidos 39 terroristas numa tentativa de ataque a Muidumbe. Na madrugada de 10 de Abril, foram abatidos 59, como resultado de um ataque que protagonizaram nas ilhas Quirimbas. Na noite de 11 e 12 de Abril foram abatidos mais 30 insurgentes que tentavam atacar a Ilha do Ibo, em quatro embarcações disfarçados de pescadores, disse Miquidade, a 28 de Abril. Quer dizer que os terroristas se vingaram antes da grande ofensiva das forças governamentais?! As vitórias momentâneas e de grande envergadura parecem sem fundamento que as sustente porque todas as informações que nos chegam sugerem que os terroristas voltaram a ter iniciativas de combate.

Acrescentou ainda o ministro do Interior que um outro insurgente foi abatido após as autoridade o terem surpreendido com uma embarcação contendo material bélico e meios de comunicação. Como resultado das incursões das FDS, os insurgentes foram executar 52 jovens que se recusaram integrar o grupo. Esta exposição carece de uma explanação circunstanciada porque é evidente que o massacre de jovens teve lugar depois da primeira incursão das FDS contra os terroristas e não aparece como consequência dos ataques infligidos aos terroristas pelas FDS. O massacre aconteceu antes das incursões das FDS.

A defesa da pátria é um assunto sério que não se compadece com fantasias. Não se constrói uma nação com base em mentiras e de ludibriar da opinião pública. Seria muito bom que as FDS acabassem com os terroristas porque o povo precisa de paz e de desenvolvimento. Não há desenvolvimento sem paz.

Para além da acção militar, o país precisa de uma limpeza do substracto que pode contribuir para o ambiente de conflitos e guerras. Isso pode ser evitado com justiça social e distribuição equitativa das oportunidades que o país oferece sem discriminação de qualquer espécie como tem acontecido até aos nossos dias. Precisamos de retirar o tapete vermelho dos pés dos terroristas. A pobreza é um importante motivo para as pessoas verem no conflito como um meio para se livrarem da marginalização económica em que se encontram sujeitas as suas famílias, aldeias, distritos, províncias e regiões.

Os benefícios que os recursos naturais proporcionam devem se fazer sentir no dia-a-dia das famílias e o Governo tem falhado na distribuição equitativa da riqueza nacional e das oportunidades. São as mesmas pessoas e famílias medidas em tudo quanto seja negócios, agindo como se o país pertencesse à gente do partido governamental. Esta postura de governar que prevalece desde que o país se tornou independente tem sido uma permanente fonte de problemas como guerras pelas quais temos vindos a passar.

A exclusão baseada na filiação partidária no acesso à distribuição de oportunidades tem sido a fonte de conflitos. A ausência de alternância na governação e dos destinos do país serve como a gasolina jogada sobre a fogueira porque não constitui segredo nenhum de que a Frelimo se mantém no poder através de fraudes eleitorais e não por mérito e livre escolha do povo. As eleições servem, entre nós,  como um acto decorativo para enganar a comunidade internacional e driblar as mentes  dos mais distraídos dos que se deixam levar por capulanas, t-shirts, sumos, passeios e dançar nos showmícios. A culpa é da oposição que perde o foco e se deixa mergulhar em intrigas, digladiando-se por aliciamentos de membros ao invés de se juntar para lutar contra o adversário comum.

O povo devia abrir os olhos para não cair em armadilhas dos políticos que deram provas bastantes de serem perniciosos ao país. Todos se enganam e isso é natural,mas deixar-se enganar sempre já não é normal e quando assim acontece, a culpa é do enganado e não de nenhum feiticeiro. Quem confia em ladrão confesso, em criminoso conhecido, a culpa é de quem confia, é de quem vota em escória.

As eleições, no nosso país, são uma farsa que deveriam ser banidas enquanto não houver interesse de ver o povo a expressar a sua genuína vontade. A Frelimo impede que haja alternância na governação do país e a falta de entendimento entre a oposição funciona como um condimento para que os que vêm destruindo o país continuarem no poder. A oposição está satisfeita a manter-se debaixo da mesa do poder de onde caem migalhas interessantes que entretêm alguns leões, aparentemente, desdentados.

Quando  não há democracia real, como é o nosso caso, o poder arranca-se nem que seja por manifestações de rua. A oposição anda ofuscada por interesses mesquinhos e não enxerga o essencial da luta política. Ainda não entendeu a absoluta falta de vontade da Frelimo em estabelecer instituições democráticas reais no país para haja o fim de conflitos, em Moçambique.  A ocupação do espaço político e económico exclusivamente pela Frelimo é a fonte de todos os problemas por que temos vindo a passar desde 1975.

Enquanto não forem tomadas medidas mais sérias e arrojadas, como a declaração de guerra, clarificando  que o país está sendo vítima de uma agressão externa, o que se passa em Cabo Delgado vai parecer uma longa-metragem de um filme de apocalipse. O ministro do Interior,  em sede da Assembleia da República, a 15 de Maio, solicitado para informar sobre Cabo Delgado, limitou-se a reafirmar os slogans conhecidos, sem dizer mais nada de concreto. (Edwin Hounnou)

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