Manuel, bispo do povo!

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Beira (Canalmoz) – Dom Manuel Vieira Pinto (1923-2020) arcebispo emérito de Nampula, falecido no último dia do mês de Abril em Portugal onde se encontrava quase em estado vegetativo, é um nome incontornável da construção da Igreja Católica comprometida com o povo de Moçambique. Dom Manuel Vieira Pinto chegou a Moçambique em 1967, em plena guerra de libertação que opunha o regime colonial de António de Oliveira Salazar / Marcelo Caetano às forças nacionalistas agrupadas na Frente de Libertação Nacional que culmina com a independência, a 25 de Junho de 1975.

Manuel Vieira Pinto à sua chegada a Moçambique, demarca-se da Igreja Católica colonial, transmitindo a mensagem inequívoca de tempos novos de uma nova igreja dos pobres, uma igreja das palhotas, como disse o meu bom amigo Padre José Luzia  no seu livro de descrição exaustiva da acção evangelizadora daquele que foi o grande bispo de Moçambique.

O primeiro “escândalo” que Manuel Vieira Pinto cometeu foi, no seu desembarque no aeroporto de Nampula, erguer um menino negro e beijá-lo. Aí começou a incompreensão dos sectores mais conservadores do regime porque, salvo raras excepções, a Igreja Católica era o prolongamento do sistema colonial com o qual havia firmado a Concordata pela Santa Sé e o regime de Salazar, em 1940, estabelecendo, assim, uma aproximação de complementaridade entre as duas entidades.

Dom Teodósio Clemente de Gouveia, arcebispo de Lourenço Marques (1940-1962) explicitou a missão da Igreja Católica dizendo, recitado de memória, que “ensinemos, sim, os pretos não para serem doutores, mas apenas para entenderem as ordens do patrão”. Aqui fica sintetizada a tarefa essencial reservada à Igreja pela Concordata – moldar os pretos para serem somente moleques dos colonialistas e nada mais do que isso.

A figura de Manuel Vieira Pinto é  extremamente  grande para se encaixar em esquemas de uma igreja ao serviço de um regime político opressor.  Ele defendeu com tenacidade e determinação os pobres, explorados e oprimidos tanto pelo sistema colonial português como pelo sistema instalado pelos libertadores da pátria moçambicana. O Homem era o princípio e o fim da sua evangelização. Enganaram-se todos aqueles que pensaram que Dom Manuel Vieira Pinto se opunha ao sistema colonial por ser de estrangeiros. Ele  se opôs aos horrores do sistema imposto pelos novos donos da situação política, denunciando os seus excessos porque só assim se sentia bem com Deus e com os homens. Dom Manuel Vieira Pinto era um homem inconformado enquanto o povo de Deus não tivesse liberdade e desfrutasse da paz pela qual se bateu.

Conta-se que Samora Machel, irritado, dirigindo-se a Manuel Vieira Pinto e lhe perguntou porquê sempre lhe fala do povo e não da sua igreja e de Deus. O bispo respondeu que o seu Deus não precisa da sua advocacia nem da sua defesa para nada porque no dia em que precisar que seja defendido  pelos homens, Ele deixaria de ser Deus. Quem precisa de ser defendido são os homens. O bispo não poderia ser mais lúcido, e dizia que só defendendo o homem estaria a defender a Deus. Muitos perdem-se no firmamento à procura de Deus, mas não conseguem enxergá-lo mesmo ao seu lado. Esta é a diferença que separava Manuel Vieira Pinto dos demais que se prostram clamando por um Deus desconhecido e vago. Pela sua postura, ao longo da sua vida coleccionou inimigos, sendo todos eles que se posicionaram do lado do poder instituído.

Um pouco depois de o governo da Frelimo ter chegado a entendimentos com a Renamo, viajando o bispo de Nampula-Maputo, para conferenciar com governantes moçambicanos, Manuel Vieira Pinto contou a um amigo meu, por motivos éticos não vou citar o seu nome, que as pessoas que se sentam na cadeira do poder quase todas sofrem da mesma síndrome de cegueira e de surdez. Continuando, disse que muitas vezes recomendava aos governantes coloniais para conversarem com a FRELIMO a fim de entenderem a razão por que lutavam. Os governantes coloniais sempre diziam que não tinham nada a conversar com “turras” manipulados por comunistas soviéticos, chineses, cubanos e de outros países. Assim, a guerra prolongou-se por longos 10 anos com todas as consequências a ela inerentes. Depois de tantas mortes, a FRELIMO e Portugal encontraram-se em Lusaka, capital da Zâmbia, onde delinearam a independência de Moçambique, para 25 de Junho de 1975.

A seguir à independência, iniciou-se uma nova guerra e o bispo alertou aos novos governantes do país para procurarem saber por que lutavam moçambicanos contra outros moçambicanos e a resposta foi invariável que eram “bandidos armados” manipulados pelos regimes racistas da Rodésia do Sul (hoje Zimbabwe) e da África do Sul do Apartheid. Insistia Manuel Vieira Pinto que os que estão nas matas eram tão moçambicanos quanto aos governantes e estão a lutar por alguma razão. A guerra destruiu a economia e o tecido social, por 16 anos. Mais tarde, os dois beligerantes sentaram-se à mesma mesa em Roma, capital da Itália, e assinaram os acordos de Roma.

É necessário ter a capacidade de ouvir outras opiniões, principalmente dos que pensam de modo diferente dos que nos rodeiam. Sobre um assunto controverso, os integrantes do G40 pensam, julgam e emitem a mesma sentença e dão as mesmas recomendações. Uma opinião de outros quadrantes é considerada  como um palpite da “mão externa”.

Manuel Vieira Pinto a todos defendeu  com justiça. Não ficava vendo injustiças a passarem em procissão. Levantava a sua voz para dizer o que estava errado e o que devia ser corrigido.

Eu próprio, entre 1982/1983, quando era perseguido, na Cidade de Nampula, onde era docente da Escola Militar Samora Machel, hoje Academia Militar Samora Machel, pela dupla Contra-Inteligência Militar, de Lago Lidimo, e SNASP (Serviço Nacional de Segurança Popular), tive que me socorrer da protecção de Manuel Vieira Pinto que evitou que o pior me acontecesse. A Frelimo sentenciou à morte meu irmão, Fernandes Baptista, sem que tivesse sido julgado por nenhum tribunal. Preso em Março de 1981, em Maputo, deportado para Cabo Delgado, depois para Ilha de Moçambique, onde viria a ser amarrado dos pés  às mãos e jogado para o fundo do mar, na companhia de um seu colega de martírio, Jossias Dhlakama, em Julho do mesmo ano.

Manuel Vieira Pinto prometeu que falaria com o Presidente Samora Machel. A partir de um determinado momento, as perseguições à minha pessoa reduziram. Para me prevenir de uma eventual busca, Manuel Vieira Pinto aconselhou-me que lhe fosse entregar todos os documentos, escritos e fotografias, incluindo as cartas que eu havia endereçado a Samora Machel nas quais procurava saber o que de mal havia feito o meu irmão, o seu paradeiro e com quem ficaram os seus bens. Nunca recebi qualquer resposta, para além da minha prisão e levado a Maputo para ser presente ao perigoso lampião Lago Lidimo a fim de ser interrogado e intimidado pelo meu atrevimento de mexer com o sistema.

Muito obrigado, Dom Manuel Vieira Pinto! Descanse em paz, bispo do povo! (Edwin Hounnou)

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