O encantador do tempo perdido

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Beira (Canalmoz) – Naquele mágico Dezembro meus guardiões literários levaram-me ao Mar de Caribe, ao seu enternecedor verde-turquesa, diluído numa madeixa amarela, na sua linha confinante. O encontro com o Caribe fora esporádico, na Ilha de Bonaire, com as suas praias povoadas de coqueiros, que me remetiam aos lugares de memória de Gabo, Alejo Carpentier, entre outros.

Os deuses reservaram-me uma breve estância em Guayaquil, com um itinerário, logo a seguir, pela majestosa Estrada Pan-americana, nos Montes Andes, nas alturas, quase a um palmo das enubladas almofadas de Deus. O carro bordeava a cordilheira dos Andes, fazendo altibaixos, em carícias desbordantes, imitando as saliências e reentrâncias, no que parecia o corpo de uma mulher: o Parque Podocarpos, em Zamora, depois Cuenca, Riobamba, Ambato, San Domingo de Los Colorados, Esmeraldas, Quevedo, Puerto Viejo, Ingapirca, Porto Lopez, Salina, Manchala, Cotopaxi e Quito. O itinerário incluíra ainda a Vilcabamba ou Vale Sagrado / Da Longevidade, com os seus rios nutridos de substâncias, a benefício das quais encantaria o tempo perdido. A minha imortalidade.

Hospedei-me no Hotel Continental, em Quito. Não obstante a efervescência do petróleo, os lugares acima eram um remanso de peregrinação de turistas de todo o mundo. Naquele ano eu completava os quarenta anos e chegar a Vilcabamba dava-me esperanças de poder recuar o relógio biológico até aos meus vinte e cinco anos. Não que padecesse de algum problema fisiológico, como suspeitou o recepcionista do hotel, ao qual jurei a pés juntos que continuava um touro, sem necessitar de adictivos. Ele soltou uma sonora gargalhada, num tom como o de pratos a quebrarem.

O Hotel Continental, durante quatro dias, resumiu-se no Castelo de If. Uma perfeita revisitação de O Conde de Monte Cristo, com uma imposição que nos obrigava a mantermo-nos a portas de dentro, arremetidos aos seus cercos de ferros vigiados por concertinas, por causa da alta criminalidade. A convenção com os anfitriões obrigava-nos a um escrupuloso respeito a medidas de confinamento e saídas de táxi, sempre pela mão de um guia, num perímetro de meio quilómetro, mais enfocado no centro, onde estava a Catedral de Quito.

Já visitáramos La Isla de la Plata, contigua a Puerto Lopez. La Isla de la Plata, também chamada Galápagos dos pobres, é uma área protegida, devido à sua natureza, formada por animais em extinção. Fora há muitos anos um antro de atracadores e piratas, que guardavam nela os seus tesouros. O dono do hotel Cabañas Playa Sur, no Puerto Lopez, um italiano casado com uma holandesa, já tivera laços com Moçambique, mais pelas suas antigas convicções filosóficas socialistas, comungadas por alguns moçambicanos, por isso ofereceu-me um bungalow de luxo, no estilo rupestre, com muita vegetação, lianas e trepadeiras, nas traseiras. De manhã tomávamos o pequeno-almoço juntos, numa sala com vista ao mar, onde também adormecia o fóssil de uma baleia e um ponto cardinal, marcando a distância que do local às diferentes cidades do mundo, sem descurar Maputo. O casal vivia um para o outro, sem parentes nem familiares, que não fossem eles, os seus empregados e clientes. Porém, ele tratava maravilhosa e carinhosamente a esposa por “mi Brújula Roja”. Das duas uma, a bússola vermelha a que ele se referia teria a ver com o marco da praia ou os cabelos dela tingidos de laranja, que luziam donde quer que fosse. Este Fernando, dono de uma afabilidade e saber incríveis era um remanso de paz e benevolência, sem igual, no mundo. Abastado, mas despojado de ouro, colares e roupas vistosas. Sem ares de celebridade, me tornei amigo dele porque lhe descobri essa afinidade.

Não obstante, Fernando viria a cometer um erro, com o qual desencantara uma das minhas previsões de anonimato, que me custou muito esforço em sonegar-lhe. Lá busquei formas de perceber como ele chegara àquele terreno secreto:

“– Además de periodista es usted un escritor”.

Apanhado em falta, quase corei.

“– Cómo ha podido llegar tan lejos, Don Fernando?”

“– He hablado con mi abuela, que es una adivina”.

“– Lo bueno es que su abuela lo sabe todo sobre mi”.

“– Y sabe cómo se llama mi abuela?”

“– No lo sé”.

“– Google”.

Nos rimos. Ele remexeu no saco de perguntas:

“– Pero dónde publica?”

“– En Moçambique, Brasil y Portugal”.

“– Yo no soy un literato. Busqué su nombre porque con los conocimientos que tiene esto es poco, pensé que por supuesto escribiera para el mundo”.

Acendeu um cigarro, absorveu o fumo e, acto contínuo, expeliu-o pelas narinas, convertidas momentaneamente em tubos de escape fumarentos. Depois tossiu cavernosamente, uma tosse de cão, que o sujeitou a ladrar:

“– Pero, salvo una excepción, a que propósito vino usted aquí?”

“– Desde luego en busca de encantar el tiempo perdido”.

“– Y sabe usted dónde lo busca?”

“– En Vilcabamba”.

Ele largou uma sonora gargalhada, ainda denotei-o a tossir ligeiramente, pois o fumo ficara-lhe preso nos brônquios, que soltavam ronquidos, como um cão a tossir dentro de si:

“– En Vilcabamba sólo hay viejos y viejas como yo que buscan rejuvenecer. Muchos salidos de Estados Unidos y Canadá, compran sus casas ahí y viven en la esperanza de la eternidad”.

“– Pero dónde está el secreto de Vilcabamba?”

“– Para eso hay que ir allá. No se lo puedo decir, sin que la conozca”.

“– Lo haré”.

“– Perdone, no es mi intuición, pero me abuela me dijo: usted me escucha, más los escritores que conozco no tienen modestia. Cuando me hablan es para enseñarme sus escrituras. Tiene que venderse. Ese es el camino rápido para ser un célebre. Después no se olvide de la “pava”: vista usted vistosos trajes azules, una txapela / boina vasca, o sombreros de matices diferentes; es lo que hacen los otros mediocres, para conquistar los ojos ajenos. Cuando pueda, no fume un cigarrillo ordinario como yo, fume un cigarrillo de pipa o unos puros cubanos, onerosos, para que le miren.”

“– Son muchas cuentas, don Fernando, dónde encuentro la plata para cargar con todos estos gastos tan altos?”

“– Busque un mecenas. Aquí hay muchos. Haga pasarse por un talentoso esmeraldino”.

A propósito, contentei-lhe que estava a ser muito divertida aquela viagem, pois em Quito fez-me muita graça que me tivessem tomado por habitante das Esmeraldas. O mito das Esmeraldas era a dos negros que habitam aquela costa do Pacífico e custou um esforço dizer ao recepcionista do Continental que não procedia daí. Ele até me acusou de imodéstia por pretender ir à discoteca de táxi. Incluso chamou-me aristocrata esmeraldino. O italiano atalhou:

“– Porque los esmeraldinos son buenos bailarines de bolero y son conocidos como unos toros en la cama. Les gustan las mestizas y blancas. Son pescadores, musculados y muy buscados”.

“– Y lo que pasó es que en la discoteca he conocido una chica del color del cacao. Pasamos toda la noche hablando y por la mañana quiso tomarme de las manos”.

“– Y qué dijo usted?”

“– Que se olvidara de mi identidad, pues no soy un hombre esmeraldino”.

“– Ha cometido un error. Lo importante en la vida, mi querido amigo, no es lo que usted es, mas como mantiene la apariencia”.

“– Qué va!”

“– Debía de dejarla que lo disfrutara como un esmeraldino, para la fantasía de ella”.

No dia seguinte, depois de me despedir com um abraço efusivo ao Don Fernando e dois beijos à sua Brujula Roja, parti para o alvoroçado e remoto lugar de Vilcabamba. Aluguei um quarto num primeiro andar, de uma modesta pensão, escrita “Casa del Amor”, com vista para o Parque Municipal, onde observava os turistas chegarem em grandes aluviões. Durante o primeiro mês a proprietária do hotel, Conchita de las Casas, não falou comigo, pois era um bordel e eu mantinha hábitos monásticos. No segundo mês, após a avó lhe revelar que estava perante um escritor, que não se importava com a ruidosa clientela, ela pediu para falar comigo. Mostrei-me todo receptivo nessa conversa. Foi quando ela me contou a estória de uma mulher imortal, Valéria, que há um século se conservava como uma rapariga de 25 anos, sem rugas na tez e não prescindia de nenhum contacto. Fui logo ter com ela. Mostrou-me um rio com uma espécie de águas térmicas, ricas em magnésio e ferro, e lá disse-me que me mergulhasse imediatamente, senão o Rio perderia os dotes da sublime imortalidade, pelo que acatei. (Adelino Timóteo)

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