Agora, teremos paz?

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Beira (Canalmoz) Esta é uma pergunta simples, porém, complexa e difícil de responder. Qualquer cidadão normal, em pleno gozo das suas faculdades mentais e intelectuais, deve colocar a si próprio, à sociedade, em geral e ao Governo, esta pergunta se com o desarmamento das forças residuais da Renamo, incluindo dos seguidores da Junta Militar da Renamo, passaremos a ter uma paz efectiva e duradoura. Enganam-se os que pensam que já temos uma paz garantida por a Renamo ter ficado sem o seu principal meio de dissuasão as armas. O Governo terá que dar ainda muitos passos em frente para que o país tenha paz e viva tranquilo, abdicando-se das práticas como a discriminação e exclusão com base na pertença partidária e ideológica, de acesso à riqueza nacional, às oportunidades de negócios e aos recursos de que o país dispõe.

No tempo colonial, a discriminação e exclusão fundamentavam-se na base da coloração da pele de cada individuo. Quanto mais clara fosse a pele, mais benefícios tinha. Hoje, a discriminação e a exclusão baseiam-se na pertença ideológica. Beneficiar dos frutos da independência é uma bênção que chega a poucos, nesta nossa terra, chamada “pátria dos heróis, por quem tudo abocanhou para si e para o seu grupo de pilhagem. Na “pátria dos heróis” morre-se por revelar uma opinião contrária à do regime. Os esquadrões da morte passeiam a sua classe de cachorros que matam sob o comando do seu dono. A rádio e a televisão públicas servem de amplificadores da voz do regime através do G40.

Nenhum cidadão aceitará que fique impávido que um grupo de pessoas usufrua, de forma egoísta, os benefícios da independência, como acontece nos dias que correm, desde 25 de Junho de 1975 e a situação vemse agravando por cada dia que passa. Hoje mais que ontem, o fosso que separa os poucos endinheirados, saliente-se que sem causa, e a maioria pobre da população vai ficando mais largo e fundo. A causa de todas as guerras por que temos vindo a passar, desde a independência, deve-se, exclusivamente, à má governação, à discriminação e exclusão social a que a maioria da população moçambicana se vê sujeita.  Ninguém lutou para trocar o colono branco por colono preto. O povo lutou pela sua liberdade e igualdade de oportunidades.

A partidarização das instituições públicas, incluindo dos órgãos de justiça, e a impunidade dos que roubam o bem público apimentam o xadrez político do país. A injusta distribuição da riqueza nacional serve de coramina que faz ressuscitar os rancores adormecidos. É a maneira não transparente como uns chegam ao poder, socorrendo-se de fraudes eleitorais. É a artimanha que se monta para que uns saiam, sempre, derrotados das eleições e outros sejam, eternamente, vitoriosos, para ficarem com a riqueza que a todos deveria beneficiar. Não há nenhum feiticeiro, nem de dentro nem de fora, que nos esteja a tramar a vida. É um grupo específico e conhecido que joga a todos nós para uma sarjeta, que nos vem empobrecendo tanto como famílias e nação inteira. Faltam à verdade quando nos tentam impingir as culpas da guerra dos 16 anos aos regimes minoritários da Rodésia do Sul e do Apartheid.

A culpa pelas guerras que nos assolam é dos que agem como se Moçambique fosse um objecto achado e sem dono. Um país não nunca foi um troféu. Moçambique é do seu povo. Nenhum país pode ter paz enquanto as suas elites continuarem a se comportarem como proprietários dos seus países e povos. O país pertence a todos e a questão da pertença não se deve limitar apenas na bandeira e no Bilhete de Identidade. Deve ser muito mais que isso e o factor inclusão política, social e económica é determinante para a estabilidade do país. Enquanto não houver inclusão, o Governo pode recolher todas as armas e vasculhar todos os esconderijos de armas, a paz continuará ameaçada. O que ameaça a paz não são as armas da Renamo, mas a exclusão e discriminação. Os que ameaçam a paz são os que se apoderam do poder político para serem homens ricos.

O sentimento de exclusão social, política e económica está generalizado e os exemplos são às centenas. Como dizia o Papa João XXII, na sua encíclica Pacem in Terris, que o novo nome da paz chama-se desenvolvimento. A exclusão, a discriminação, os roubos, a gatunagem e a partidarização das instituições públicas, quase institucionalizados, são um bloqueio ao desenvolvimento e incitam à violência. Em Moçambique, até os órgãos de justiça dançam a música do partido no poder. Em épocas eleitorais todos ignoram as reclamações da oposição. Não analisam o mérito da causa, como temos visto todas as vezes que há eleições. Os órgãos que organizam e operacionalizam as eleições estão dominados pelo partido no poder, por isso, há confusões ao fim de cada acto eleitoral. A Frelimo quer a maioria parlamentar, e a tem conseguido por enchimentos das urnas, para decidir sobre o destino de todos como se fossemos gado do seu curral.

Quando os recursos naturais são abocanhados pelas mesmas pessoas, oportunidades de fazer negócios são drenadas para os mesmos indivíduos e famílias, as eleições são uma brincadeira para legitimar os corruptos, é claro que a guerra se torna inevitável. Não é preciso que haja uma Renamo ou sua Junta Militar para entender que o país está metido numa encruzilhada. Em todas as empresas públicas ou com algum capital público tem, no seu Conselho de Administração, um indivíduo que se identifica com o partido Frelimo. Sendo assim, só uma unha negra pode evitar uma hecatombe porque todas as condições objectivas e subjectivas estão evidentes em todos os sectores da economia.

Se nada for feito, no sentido de reverter a situação, confiar, somente, no desarmamento da Renamo que seja tudo quanto baste para haver paz, é um puro engano porque a Renamo é a expressão máxima do descontentamento popular em relação ao regime político vigente no nosso país, por ser nocivo e prejudicial às aspirações do povo. Não podemos ser órfãos na nossa própria terra. O povo quando é chamado a votar nas eleições é para introduzir mudanças na forma de governação e não se trata de um mero exercício de rotina para que o país possa constar da lista dos países democráticos onde há, também, eleições ainda que manchadas de sangue e de enchimentos. A paz é um grande edifício que se constrói com a participação de todos. Ninguém pode contribuir para a paz quando, no dia a dia, é excluído do banquete da independência nacional.

A paz precisa de homens que apostam na reconciliação nacional, tolerância e no desenvolvimento. Ela não se circunscreve apenas no silêncio das armas. Para calar as armas é preciso haver justiça social, distribuição equitativa das oportunidades e da riqueza que o país possui. A paz não é e nunca será uma dádiva. Constrói-se com a inclusão, tolerância, justiça e desenvolvimento. Se cada um não se revir nas políticas governamentais e concluir que não valeu a pena abraçar a luta, estaremos perdidos.

Enquanto não forem afastadas as práticas de exclusão, de discriminação com base na filiação partidária, ainda vamos a tempo de assistir a mais um outro acordo de paz. Só um Governo de homens abnegados à causa comum podem consolidar a paz. Confrontar a ideologia e práticas da Frelimo ainda continua sendo um problema bastante sério, no nosso país. (Edwin Hounnou)

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