O jogo da falta de alternativa

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Maputo (Canalmoz) – Na semana passada, dissemos, aqui neste mesmo espaço, que não tínhamos qualquer tipo de ilusões sobre a eleição de Gustavo Mavie, ex-director da Agência de Informação de Moçambique (AIM), para ocupar uma vaga na Comissão Central de Ética Pública. E tivemos o cuidado de explicar aos estimados leitores a que tipo de lógica obedecia o chamamento e a insistência na pessoa de Gustavo Mavie para ser o fiscalizador da ética pública.

Gustavo Mavie foi eleito na passada segunda-feira. E tiveram até de suspender a transmissão em directo, pela televisão e pela rádio, do esventramento do bom senso, numa clara complementaridade dos fins que justificam os meios.

Insistimos nisto: é preciso que os moçambicanos entendam o que efectivamente está em jogo. É uma agenda maior de exercício da violência contra o Bem. É preciso que os moçambicanos entendam que a Organização que detém o poder neste momento tem uma agenda própria de colocar um limite muito claro sobre o padrão de comportamento que os seus membros devem assumir.

Gustavo Mavie – que está de parabéns por se ter batido estoicamente contra tudo e contra todos, incluindo contra a própria ética – é precisamente um instrumento de exercício dessa violência. A agenda da Organização que está no poder, a curto prazo, é premiar os piores filhos que o país tem, porque a sua reprodução é fácil, e os seus custos são facilmente diferidos para terceiros.

A longo prazo, essa agenda visa subverter os valores nobres da sociedade, a fim de que os cidadãos honestos e trabalhadores se sintam tentados a terem vergonha da sua honestidade. Não tenhamos ilusões sobre o verdadeiro plano.

A promoção de verdadeiros delinquentes e a sua consagração pública como administradores dos bons hábitos visa, em primeiro lugar, espevitar tais comportamentos delinquentes, para que, por sua vez e naturalmente, tenham efeito de revogação das boas práticas da sociedade.

Aí, é óbvio que as pessoas de bem passarão a duvidar se vale a pena ser honesto, íntegro e exemplar. Essa agenda de violência contra os moçambicanos tem o objectivo de colocar a próxima geração a perguntar a si mesma o que ganha um cidadão em Moçambique por ser honesto e o que ganha por ser um reconhecido ladrão, por exemplo.

Quanto mais confusão houver entre o limite do aceitável e do inaceitável, mais essa agenda dos que detêm o poder estará a estabelecer-se com sucesso. E é vital que os moçambicanos não ignorem esses sinais que nos vão sendo dados.

Para os jovens que viram pela televisão, ou leram nos jornais ou nas redes sociais, a eleição de um condenado por desvio de fundos como baluarte da ética, no seu subconsciente constrói-se a sensação de que ser bandido compensa, com vantagens que incluem consagração pública pela Assembleia da República. E é com esse referencial de padrão do aceitável que os jovens vão crescendo. Porque, como República, não fomos capazes de implementar regras que inspirassem outro tipo de referencial sobre o certo e o errado!

É muito urgente que os moçambicanos compreendam para onde isto está a caminhar. Nada está a acontecer por puro resultado do acaso. Quando se instalar a ideia de que os bandidos é que são cidadãos honrosos, então passa-se para a segunda fase da agenda superior. “E qual é essa fase?”, perguntará, e com razão, o estimado leitor. Essa fase está mais ou menos já em implementação. Consiste em difundir a ideia de que todos somos bandidos, exactamente para legitimar que sejamos dirigidos por bandidos ou tenhamos bandidos como referência da sociedade, mas já sem capacidade para nos opormos a isso. Aí ficamos todos iguais.

Não é por acaso que, depois de, na semana passada, a bancada parlamentar da Renamo e a bancada do Movimento Democrático de Moçambique se terem oposto vivamente à eleição de Gustavo Mavie, na passada segunda-feira mudaram de opinião, ainda que, na sexta-feira anterior, o Tribunal Administrativo tenha enviado à Assembleia da República informação segundo a qual, a condenação a Gustavo Mavie se mantém, pois existe um recurso, sobre o acórdão, que ainda não tem decisão.

O que fez com que as bancadas parlamentares da Renamo e do MDM mudassem de opinião durante o fim-de-semana? É simples. A bancada parlamentar da Frelimo, que propôs o indivíduo, percebeu que, se aprovasse sozinha o seu elemento que representa o ataque visceral à ética, não cairia bem, e era preciso arrastar consigo a oposição incauta nisso. É muito provável que tenha havido chantagens para que a oposição aderisse.

Mas o facto é que a Frelimo está a implementar um jogo muito conhecido em sociedades que pregam a degradação moral colectiva. É um jogo chamado “onda da falta de alternativa”, que é o culminar da sua agenda de revogação da moral e da ética.

É fácil perceber que a mudança de opinião da Renamo e do Movimento Democrático de Moçambique não penaliza a Frelimo. A Frelimo está ciente de que não precisa de aprovação popular. Está ciente de que não representa qualquer tipo de valor, por isso propõe “os Mavies desta vida” assim às claras e até produz prosas laudatórias em seu favor. Está clara a sua agenda de violência contra os moçambicanos, por isso mesmo não se incomoda com nada do que é dito.

A parte importante da sua agenda é arrastar consigo a Renamo e o MDM e todos os sectores que ainda distinguem o certo do errado, usando esses expedientes de descredibilização, para que, no fim, o grande público se convença de que não existe alternativa aos bandidos; para que, no fim, estejamos todos em consenso e em aclamação de que “somos todos bandidos”. Foi o que aconteceu na Assembleia da República na passada segunda-feira. É o pontapé de saída para essa narrativa de que o país está sem alternativas. Cabe às pessoas de bem discordarem da implantação dessa narrativa. Ainda há, sim, em Moçambique moçambicanos limpos. Precisamos de defender o país, para que deixemos para a próxima geração uma herança de um país onde ainda é possível separar o certo do errado, separar o bem do mal. Não é verdade que não existe alternativa a esta gente. (Canal de Moçambique)

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