Que o túnel nos proteja desses pobres!

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Maputo (Canalmoz) – Não parece haver dúvidas sobre a pertinência de termos uma cidade capital organizada, limpa e com mecanismos de mobilidade facilitada. Tal como não deverá haver dúvidas de que qualquer entidade que se propuser a atingir esse objectivo deve, em princípio, contar com o inequívoco apoio de todos, independentemente da sua orientação, desde que seja ou se apresente como pessoa de bem.

A administração municipal da capital nacional tem um ambicioso plano de reorganização da cidade, o chamado “Txuna Maputo” e até já tem fundos de importantíssimos parceiros, como o Banco Mundial, que se disponibilizaram para apoiar essa marcha rumo à beleza de Maputo. Até teremos um parque de estacionamento subterrâneo num dos pedaços da Av. Julius Nyerere. E aqui acenamos positivamente ao Dr. Eneas Comiche e à sua equipa, que tiveram a coragem política para dar passos que todos nós sabemos que são difíceis, porque esbarram sempre na equação do populismo sempre disponível.

O que nos preocupa, entretanto, é um debate que não está a ser feito ou uma reflexão a todos os títulos importante sobre a sustentabilidade, ou não, da forma como se está a reorganizar a capital e o que poderemos colher a médio e longo prazo com a forma como as coisas (não) estão a ser feitas.

Referimo-nos mais concretamente ao esmagamento de fontes de rendimentos de milhares de famílias sem que lhes seja dada uma alternativa credível para sobreviver. Parece-nos que o “txunar Maputo” foi pensado na perspectiva de melhorar a vida dos que já estão bem e esmagar sem qualquer tipo de piedade os que já viviam mal.

Chegámos a um ponto em que o Conselho Autárquico escolheu apenas um lado, quando, na verdade, jurou servir a todos os munícipes. Mas, neste momento, aquilo a que se está a assistir é a uma administração municipal a esmagar os pobres, para arrancar aplausos dos que vivem no cimento.

A forma como os negócios informais honestos de várias pessoas foram simplesmente esquartejados sem que lhes fosse dado um outro caminho sustentável para a sua sobrevivência é condenável. A forma insensível como vários homens e mulheres e jovens foram atirados para o vale da falta de meios para sobreviver não deixa de ser chocante. Esses vendedores e vendeiras informais são chefes de família que, da noite para o dia, já não sabem como vão sobreviver, porque os seus negócios foram proibidos e as suas barracas foram completamente vandalizadas pelo Estado. No fundo, são vidas de moçambicanos que foram vandalizadas, e não propriamente barracas.

As barracas e os informais nasceram aos olhos de todos e com permissão do Estado. Que fizemos todos vista grossa um problema, é verdade. Mas estamos todos convencidos que o Estado não criou condições para que nunca, nenhum cidadão, pensasse em vender nas ruas e passeios. A omissão de dever do Estado legitimou o informalismo. E os homens e mulheres que lá iam comprar bens mais do que apenas ir comprar há uma componente psicológica e social de que na verdade, essa compra é ajudar um irmão ou uma irmã que quer sobreviver honestamente.

A narrativa de que esses informais devem ir para os mercados é uma grande mentira. Qual é o mercado que existe na cidade de Maputo e que não tem vendedores, ou seja, com lugares vagos para receber o batalhão de vendedores que foi escorraçado das ruas e passeios? A resposta não nos parece difícil de encontrar. Desde que Comiche chegou ao poder, não nos recordamos de um único novo mercado que foi construído e inaugurado, no qual, em princípio, esses escorraçados devam ir ocupar as tais novas bancas vagas.

Portanto, o que temos aqui é apenas uma frase que foi escolhida para legitimar esse acto que, no nosso modesto observar, é arrogante e despido de qualquer espírito de humanismo. Quem cuidará dessas famílias que perderam a sua fonte de sustento que, por si só, já era precária e altamente instável?

Que a cidade deve estar organizada, todos concordamos. Que ninguém deve vender nos passeios, todos concordamos. Que não devem existir barracas a respirar o desordenamento e descaracterização da capital, aí também todos concordamos. Mas, quanto a nós, falhou terrivelmente na forma. Faltou humanismo no procedimento o que devia ser o mais básico em qualquer acto administrativo.

Começámos pelo fim e ignorámos uma ignição que pode accionar um vulcão social que estará fora do controlo de todos. Quando esse exército de pobres um dia decidir vir ao cimento, de onde foram vítimas de desterro promovido pelo Estado, aí nem os “txunas Maputo”, nem os tais parques de estacionamento subterrâneos nos poderão salvar da fúria dessa gente.

O que estamos aqui a tentar transmitir é simples. É que, na nossa opinião, todos ganharíamos se, em primeiro lugar, fossem criados meios alternativos para que essa gente continuasse a fazer os seus negócios. Estabilizada essa alternativa com toda a credibilidade, aí, sim, começávamos a “txunar” a capital. Não nos parece muito inteligente “txunar” a capital atravessando o prato e as panelas dos cidadãos mais desfavorecidos que na verdade até são a maioria da população.

Num país sem pagamento de rendimento mínimo para sobrevivência, atacar gente que, pelas suas próprias mãos, havia conseguido um meio para sobreviver e lançá-la à sua sorte e esperar que essa gente se desenrasque é igual a construir uma bomba-relógio e perder o detonador entre as peças sobre as quais andamos a pisar. É seguro que é apenas uma questão de tempo para explodirmos com tudo.

Essa gente pobre e indesejável que não mais queremos ver na cidade de cimento terá de arranjar outras formas de sobreviver. E uma delas é roubar ou vandalismo, porque acreditam que são os indesejados da sociedade. Não lhes resta alternativa, porque a única que criaram com o seu pensamento foi-lhes tirada, sem que tivessem meios alternativos para se defenderem ou continuar em outro lugar.

Do nosso lado, não acreditamos que todos aqueles homens e mulheres que estavam nos passeios ou tinham barraca estavam lá por mera diversão, ou que tinham melhor para fazer e simplesmente não quiseram. Tal como não acreditamos que, se estavam lá, o faziam porque simplesmente gostavam. Estavam lá porque não tinham outra forma de sobreviver e colocar comida na mesa no final do dia. Mas parece-nos que o Conselho Autárquico assumiu que era uma questão de diversão e era só meter um tractor por cima da banca e acabou-se a diversão. Quem proverá as suas famílias? O Estado não quer saber. Onde irão trabalhar? O Estado não quer saber. Que alternativas têm? O Estado não quer saber. Eles que se desenrasquem.

Não nos parece acertada a opção de “txunar” a capital nesses moldes, porque é garantido que esses jovens sem alternativas, sem estudos, poderão enveredar por outros caminhos que poderão custar muito caro ao país.

De nada nos vai adiantar termos cidades a brilharem de limpo se não pudermos andar nessas ruas, com medo de sermos assaltados ou esfaqueados. Se não podermos deixar uma viatura estacionada com medo de ser desmontada numa fracção de segundos. Se com eles nos passeios já desmontavam viaturas estacionadas para venderem as peças, é só pensar quantos jovens que vendiam já se foram inscrever nesse negócio de roubo de peças e celulares. Não pretendemos legitimar esses actos, mas o Estado está na posição de fomentador disso ao não dar alternativas credíveis a esses homens e mulheres que não são os responsáveis por estarem num país altamente mal dirigido, em que os dirigentes não têm inteligência para criar condições de provisão.

E alguém ainda se admira que, por exemplo, em Cabo Delgado haja muitos jovens moçambicanos a aderirem às cruzadas dos terroristas dando-lhes abrigo e colaborando com eles, e o povo a aplaudir em cada momento em que os terroristas tomam vilas. Como se chega até aí? Quando o Estado acredita que é preciso detestar e violentar os pobres para acomodar os seus ricos.

A curto e médio prazo, quando já tivermos túneis para estacionar viaturas e passeios todos abertos para nos passearmos, devemos também preparar-nos para quando esses indesejados do país decidirem reivindicar com violência a sua parte desses túneis e desses passeios. Esperamos que esses túneis tenham portões invioláveis, para escondermos as nossas casas e nossos carros. O exército de pobres virá não muito tarde reivindicar a sua parte da capital. Eles são tão donos disto quanto os ricos donos dos túneis. (Canal de Moçambique)

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