Os incendiários

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Maputo (Canalmoz) – Pode-se queimar jornais. Não se pode queimar o pensamento. A ameaça do fogo apenas faz multiplicar aquilo que esses incendiários mais temem: o espírito crítico. Há vinte anos atrás mataram Carlos Cardoso. Hoje há dezenas de Carlos Cardosos. Tenham cuidado, por isso, vocês, os fabricadores de fogos. A fogueira que criarem pode ser o incêndio que vos consumirá.

O ataque ao Canal de Moçambique não surge como uma ameaça isolada contra liberdade e a democracia. Depois de um tempo de relativa tranquilidade, estão ressurgindo na nossa comunicação social ameaças a pessoas cujo único crime é terem opinião diferente. Renasce a sombra desse tempo não muito distante em que a informação em Moçambique era dominada por um obscuro bando conhecido como o nebuloso G40, uma espécie de fábrica artesanal de suspeitas e ódio. A sua função era fazer das palavras uma tocha de fogo que atiravam contra a reputação e a integridade de pessoas que ousavam pensar e falar de forma não censurada. Esses crucificadores por encomenda parecem estar agora ensaiando um tímido, mas sistemático, regresso. Ataques sórdidos dirigidos contra figuras da nossa sociedade parecem estar de novo a ser orquestrados. Fazem-no com pouca arte: vê-se que se trata, mais uma vez, de um serviço mercenário cuja única preocupação é a intimidação. Nunca se trata de debater ideias. Trata-se apenas de intimidar pessoas, e invoca-se tudo menos as suas ideias: bastam os argumentos da nacionalidade, da raça, da etnia, da religião. Nunca, mas nunca, estes prestadores de serviços estão disponíveis para um diálogo tranquilo sobre as diferenças de pensamento. A verdade é esta: há quem não aceite a proposta de criar uma nação que se senta e que conversa. Há quem esteja empenhado em rejeitar os esforços de reconciliação nacional, há quem imagine que as pessoas podem ser governadas pela força e pela intolerância.

Estes incendiários que queimam jornais e matam os que pensam de forma não alinhada não são muito diferentes dos terroristas que, em Cabo Delgado, andam queimando aldeias e degolando pessoas. Ambos querem uma nação acéfala, sem sonhos, sem ideias. Por isso, gostaríamos de ver o seu rosto, conhecer o seu nome, ouvir as suas razões. E não queremos vingança. Apenas que se faça justiça e que estes incendiários paguem, na cadeia, pelos seus crimes. (Mia Couto)

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