Terroristas e incendiários

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Beira (Canalmoz) – A Enciclopédia Britânica define o terrorismo como o uso sistemático de violência para criar um clima de medo generalizado numa população ou parte dela e dessa forma atingir um determinado objectivo político ou económico. O terrorismo tem sido praticado por organizações políticas, tanto da esquerda quanto da direita, por nacionalistas, grupos religiosos, instituições do Estado tais que forças armadas e policiais. Os terroristas agem com base na intolerância por não compartilhar das mesmas ideias e visão. A discriminação com base na militância partidária é terrorismo. O terrorismo pode basear-se na cor da pele ou vedando a acesso a oportunidades de emprego, negócios, fundamentado na crença política. Um Governo que se socorre de esquadrões da morte para raptar e matar membros da oposição é terrorista.

Podemos ver por que caminhos tão sinuosos a nossa sociedade está a trilhar. Quando pensávamos que já poderíamos viver na diversidade, estamos surpreendidos pelo golpe que acabam de aplicar com a liberdade de imprensa, de opinião. Estamos a perder o direito de pensar diferente. Temos problemas porque não somos alinhados com o pensamento oficial, por não cultivamos o pensamento do partido governamental. Estamos a regredir a olhos bem vistos. É intimidar as pessoas, é combater a diversidade de opiniões, é tentar impor o tal conhecido por “pensamento comum”. Coisa do passado que nos fez retroceder na nossa História e nos deixou banhados em sangue.

O que caracterizava as organizações políticas nas lutas de libertação, ainda continuam a ser o seu “modus operandi”, mesmo como poder público. Cultivam a intolerância política que desagua na exclusão económica. Corremos o risco de nos considerarem cidadãos de classes inferiores por pensarmos diferentes. O povo não pode cruzar os braços como se nada de muito anormal estivesse a acontecer.

Estamos derrapando pelo plano inclinado. Retornando para os primórdios da independência em que nos impunham jornais de parede que enalteciam os feitos de um grupo e menosprezam o povo. Vamos acordar num sistema comunista e a caminho para campos de reeducação.

O terrorismo toma várias formas. O terrorismo não é só feito por grupos do Al-Shabab, em Cabo Delgado, mas também os raptos que se multiplicam contra agentes económicos, um pouco por todo o território nacional. Os raptos seguidos de assassinatos de opositores políticos, académicos e até magistrados não escapam à chacina. Aquilo que os esquadrões da morte fizeram com o professor Gilles Cistac, José Macuane, Ericino de Salema chama-se terrorismo de Estado. Os raptos e assassinatos de quadros da Renamo como Jeremias Pondeca, Manuel Lole, José Manuel são actos de terrorismo. Os bloqueios constantes que as caravanas do partido Frelimo fazem às caravanas de seus adversários políticos para além de antidemocráticos, são terroristas.

Os enchimentos de urnas com votos falsos para favorecer um determinado partido é, igualmente, terrorismo. Aqui os terroristas têm caras, nomes e andam bem vestidos de blusões. Fazem-se transportar em luxuosas viaturas todo-terreno. Os terroristas de gravata têm muita força – mandam na Polícia, fixam acusações e ditam sentenças em tribunais. São os terroristas de colarinho branco que desestabiliza o nosso país. Seleccionam seus comentadores (que funcionam como uma verdadeira quinta coluna do regime corrupto) para os programas da radio e televisão públicas a fim de enaltecerem os seus feitos e tecerem comentários pejorativos sobre os seus opositores políticos.

Os tipos do G40 proferem ameaças das pesadas, tecem infundadas acusações contra o Bispo de Pemba e insinuam infâmias, chamando-o de entusiasta dos terroristas que matam e destroem, em Cabo Delgado, pelo facto da sua postura apostólica em relação ao sofrimento das populações daquela província. Os G40 andam demasiado folgados ao ponto de faltar ao respeito a um bispo. Resta-nos apelar a Filipe Nyusi para recolher a sua matilha para não continuar a perturbar paz e tranquilidade a pessoas de bem e evitar a entrada em cena dos esquadrões da morte, aliás, como tem sido habitual.

Os ataques à liberdade de expressão não constituem novidade, no nosso país. Nos últimos tempos, as agressões à imprensa estão ganhando terreno. Em Cabo Delgado, dois jornalistas – Amade Abubacar e Germano Adriano, ambos da Rádio e Televisão Comunitária de Macomia – estiveram na prisão mais 90 dias, acusados de violar o segredo de Estado, que nunca chegou a ser provado e depois soltos sob termo de identidade e residência. A mesma sorte não teve o jornalista da Rádio Comunitária de Palma, Ibraimo Mbaruco, raptado por elementos das forças governamentais, no dia 7 de Abril do corrente e, até ao presente momento, ninguém sabe se ainda continua vivo ou assassinado.

Como a impunidade anda de mãos dadas com a intolerância política, na noite do dia 23 de Agosto passado, um grupo de cobardes atacou a redacção do semanário “Canal de Moçambique” e do diário electrónico “Canalmoz”, regando-a toda de gasolina e depois ateá-la fogo, destruindo todo o equipamento e documentos. Os criminosos devem ter saído esfregando as mãos de contentamento de missão cumprida, julgando que uma batalha foi ganha. O ataque à redacção do jornal “Canal de Moçambique” / “Canalmoz” é sinal do desespero do regime, dos cabecilhas que vêm destruindo o nosso país.

A esse ataque não só pode dizer que tivesse sido perpetrado por gatunos em busca de dinheiro. Foi um ataque à liberdade de imprensa e de opinião diferente. Foi um ataque contra a liberdade de imprensa. Foi uma afronta à Constituição da República que diz que a liberdade de expressão, de imprensa é um alicerce fundamental na construção de uma sociedade livre e democrática e de Estado de Direito. Os ladrões comuns sabem que nenhuma empresa guarda dinheiro nas gavetas dos seus escritórios. Eles arrobaram a porta e queimaram a redacção pensando que estavam a matar a ideia da verdade.

A luta do crime organizado elegeu os jornais mais críticos como seus alvos, queimando as suas redacções. Este é um fenómeno novo na nossa terra que não pode ser ofuscado com lágrimas de crocodilo condenando o acontecido. A diferença entre os ataques dos grupos do Al-Shabab, em Cabo Delgado e os esquadrões da morte nas vilas e cidades é mínima. Todos são terroristas porque usam o terror para infundir medo nas pessoas.

Em Cabo Delgado, temos os ataques terroristas de Al-Shabab, nas cidades e vilas, enfrentamos os esquadrões da morte, os raptos, as maldições do G40 e os “incentivadores” de jornais. Estamos convencidos que não temos Governo que defende o povo. Temos uma associação para delinquir. Um quadro superior do partido governamental disse-nos, há quase sete anos, que o novo chefe não anda aos mimos, aponta a AKM, sem hesitar. À primeira, não acreditámos no que tínhamos ouvido, pelo benefício da dúvida. O tempo permitiu-nos concluir que era verdade nua e crua.

Nós continuaremos a pensar que houve instruções “superiores” para se queimar a redacção do jornal “Canal de Moçambique”/ “Canalmoz” até que os autores deste crime sejam levados à barra do tribunal. Não acreditamos nos comunicados nem nos deixamos emocionar pelas lamentações. Ateiam fogo aos jornais e deixam cair lágrimas pelo canto do olho. Os donos da matilha e dos esquadrões pensam que lutaram para queimarem jornais. Obrigam ao povo ver e ouvir pelos olhos e ouvidos deles, por isso, não saímos do ciclo da guerra. Desde que chegámos à independência nacional, o país vai de guerra em guerra e de acordos em acordos, porém, sem parar com os conflitos. (Edwin Hounnou)

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