Quem está comprometido com a quadrilha dos raptos?

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Maputo (Canalmoz) Parece que há uma tentativa geral do Estado moçambicano de tornar o crime de raptos em desporto, em que os seus praticantes ganham rios de dinheiro, e o público fica a aplaudir uma actividade que o Estado descriminalizou e agora incentiva, daí que as vítimas estejam por sua conta e risco. O que se está a passar é completamente vergonhoso e, em Estados normais, já devia haver responsabilização, começando com a Direcção máxima da Polícia.

Será difícil fazer acreditar ao grande público que a quadrilha criminosa que movimenta o lucrativo negócio dos raptos não tenha alta protecção da própria Polícia. Aliás, ao ponto a que isto chegou, é mais fácil acreditar que é uma actividade da própria Polícia.

Os números disponíveis sobre os raptos, em termos de vítimas e de casos esclarecidos, levam à inequívoca conclusão de que o problema não consiste em que os bandidos são terríveis ou mais sofisticados do que o Estado. O problema parece ser a Polícia, que tem interesse em que essas extorsões a essas famílias continuem.

Faz pouco sentido que, desde 2013, quando os raptos se instalaram em Moçambique, comandados por um indivíduo do conhecimento da Polícia, citado em quase todos os julgamentos da altura, até hoje não haja culpados nem haja uma condenação exemplar para desencorajar esses marginais. Muito pelo contrário, a Polícia quer convencer essas famílias de que é normal o que está a acontecer e que o aconselhável é mesmo pagar os resgates e também aconselha a pagar essas taxas de extorsão chamadas taxa de liberdade. Existirá algum Estado sério que funcione desta forma?

Há dias, foi libertada a vítima mais recente, que ainda estava em cativeiro. Foi raptada em Junho e, ao cabo de quase quatro meses, foi libertada, depois de terem sido extorquidas à família avultadas somas em dinheiro. Mas antes foi libertado o despachante aduaneiro Artur Magaia, que, segundo soubemos, também pagou mais de um milhão de dólares.

Nenhum dos que foi raptado nem essas famílias que agora estão subjugadas por um ciclo criminoso de extorsão, pagando a tal taxa de liberdade para não serem vítimas de rapto, nenhum deles tem dúvida de que ninguém será responsabilizado. Os raptores têm tido o cuidado de informar que nada vai acontecer. E, no nosso modesto entender, não se trata de um método para aterrorizar as vítimas, trata-se, sim, de uma declaração verdadeira.

Depois de ter sido libertado o que tinha estado em cativeiro mais recentemente, foi agora raptado, na semana passada, o filho de um conhecido empresário, na cidade da Beira. À família serão extorquidos milhões, e depois terá de pagar a taxa à mesma quadrilha, para que não volte a ser raptada.

Desde 2013, a Polícia diz que está a trabalhar. Já passam sete anos. O trabalho da Polícia ainda não produziu um único resultado. De 2013 a 2020, já se sucederam dois Governos, ambos do partido Frelimo, e nenhum deles conseguiu pôr um ponto final nessa autêntica banalização do Estado. É justo perguntar se isto ainda se trata de incapacidade, ou se é porque convém manter a situação tal como está, para que alguns chefes da Polícia acumulem riqueza de extorsões, dinheiro pelo qual nunca trabalharam.

De todas as formas, o que todo este festival indica é que o crime dos raptos já não é um crime de uns criminosos comuns. Moçambique é o único lugar do mundo onde é possível raptar ininterruptamente empresários e os seus familiares durante sete anos sem que o Estado mova uma palha.

Aquando do rapto do empresário Rizwan Adatia, teve de intervir o primeiro-ministro da Índia, com quem Rizwan Adatia tem relações privilegiadas, para que este fosse libertado. E, por tabela, foi libertado um outro empresário. Depois, montou-se um filme decadente da nossa Polícia, porque, alegadamente, foi um resgate. Todos sabemos claramente que aqueles empresários foram libertados por intervenção do primeiro-ministro da Índia. Cumpre-nos perguntar: e a outros empresários que não conhecem o primeiro-ministro da Índia, o que lhes acontece? Ou estamos a dizer que, quem quiser fazer negócios em Moçambique, no mínimo tem de ser amigo de um primeiro-ministro, para lhe facilitar o resgate quando for raptado?

Do nosso ponto de vista, o que está a acontecer em Moçambique já não são necessariamente raptos, porque o rapto é um crime. Por cá, deixou de ser crime, por isso nunca ninguém é responsabilizado, e o Estado convive com a actividade normalmente, como convive com o futebol. É um negócio de extorsão que o Estado permite e talvez até esteja a distribuir alvarás sem o nosso conhecimento, desde que os investidores nessa área de negócio comprem uma parte da Polícia ou mesmo toda a Polícia. Só isso pode explicar que, até hoje, sete anos depois, não haja ninguém que tenha sido exemplarmente responsabilizado pelos raptos.

Em todos os casos, são presos uns gatos-pingados, que, regra geral, nunca sabem de nada. Não conhecem quem os contratou, não sabem quem os coordena, não sabem quem lhes paga o salário, não sabem quem é o dono da casa que serve de cativeiro, não sabem absolutamente de nada, exactamente como a Polícia também não sabe de nada sobre os raptos. Vão aos tribunais e são julgados na maior leveza, e são-lhes aplicadas penas brandas, e, no mês seguinte, estão de volta ao negócio. Tudo coincidentemente bem feito, para que esse negócio continue a respirar a robustez que respira.

Pela forma como as coisas estão, é mais seguro, em vez de nos perguntarmos quando serão responsabilizados os autores, perguntarmo-nos quem será a próxima família a ser extorquida, com a assessoria da Polícia da República de Moçambique.

Assim como as coisas estão, não é difícil chegar à conclusão que o Estado conhece a raiz e toda a dinâmica da quadrilha dos raptos.

As famílias que pagam resgate, pagam em dinheiro vivo, que é entregue a pessoas que vivem em Moçambique, transferem para contas domiciliadas no exterior e guardam os recibos da transferência. Mas o nosso Estado não é capaz de encontrar os autores morais ou mandantes dessa cadeia criminosa.

Chegou ao nosso conhecimento que mais de cinco famílias vítimas já estiveram reunidas com todos os elementos que compõem a estrutura da Administração Interna, incluindo o Comando da Polícia, e comunicaram detalhes que, seguidos com a devida seriedade, podem levar ao principal dono do negócio dos raptos, mas essas famílias receberam promessas vãs de que o assunto seria resolvido. E não foi. Falta de condições? Falta de informação? Obviamente que não. Falta uma ordem clara na hierarquia do Estado para parar com os raptos. É essa ordem que não existe, porque há uma questão de legitimidade. Ninguém tem coragem de apontar o dedo a ninguém, visto que esse crime alimenta também a elite política nacional. Só assim é que é possível vermos todo esse à-vontade do Estado perante um crime repugnante.

Famílias trabalham, montam negócios, dão emprego a moçambicanos e, no fim do dia, o Estado promove, por omissão de dever, o rapto desses cidadãos, e ficamos todos a olhar para o lado. É vergonhoso o que está a acontecer. Alguém precisa de ganhar vergonha e colocar o lugar à disposição. Assim como estamos, nem Estado parece. É brincar com quem anda a trabalhar. E isso desmotiva qualquer cidadão que pretenda trabalhar honestamente. Um Estado que não protege os cidadãos trabalhadores só pode proteger os que andam nas cruzadas de extorsões. Está tão visível que mete medo aquilo em que o Estado se transformou.

Nota: Este Editorial foi escrito vinte e quatro horas antes de a quadrilha dos raptos assassinar o comerciante Amit Samgi, em Maputo. (Canal de Moçambique / Canalmoz)

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