O meu amigo Alexsandr Prokopiev

0
285

Beira (Canalmoz) Chamava-se Alexsandr Prokopiev Popov o único cooperante russo com quem convivi, na Beira. Era otorrino. Tinha uma bela e magnânima viatura Renault. Era eu por aquelas alturas repórter do Diário de Moçambique. Acontece que o jornalismo era por aqueles tempos uma profissão tão nobre que não faltava quem não quisesse ter um amigo jornalista entre os seus. A oficina impressora do mesmo matutino acabava de ser equipada com um dos equipamentos mais modernos do país, a que acresciam viaturas alocadas à nossa redacção e uma mini-bus de recolha do pessoal, o que muito contribuía para o nosso prestígio.

Recordo-me dos meus colegas sempre ruidosos da redacção a contarem estórias misteriosas numa tarde, de raparigas sedutoras que lhes contactavam com propostas tentadoras e irrecusáveis. Estes jogos de sedução marcavam a antevéspera das redes sociais, pois que elas recorriam à ficha técnica do jornal e sorteavam as suas escolhas e paixões.

Assim, muito calculistas e propositadas, elas vinham ter à recepção da redacção. Abordavam o recepcionista solicitando falar com os seus sorteados sempre solícitos e simpáticos, que as levavam a lanchar e a reuniões sociais, no Sindicato Nacional do Jornalismo, lá para o Restaurante 100 à Hora.

Durante meses aguardei que o meu nome caísse na rifa, em vão. Os sempre eleitos meus colegas não paravam com as suas historietas de amor, rosas pelos dias de São Valentim e cinemas. Eu tentava compor a imagem de uma mulher dos meus sonhos: ousadamente loira, de olhos azuis e penetrantes. Durante os fins da tarde a redacção entupia-se do matraquear das máquinas de escrever. O matraquear detinha-se quando o João ou o Miguel, do PBX, chamavam os sorteados para a extensão telefónica sobre a mesa do Madeira Sebastião ou do Paulo Maduco. Acostumado a nunca ser solicitado eu desdenhava as chamadas, enquanto os meus colegas de olhos e cabeças arregaladas aguardassem festivamente que o Madeira ou o Paulo revezassem no nome dos sorteados.

As janelas da redacção estavam montadas a um metro e meio do chão carpetado. Pelas tardes os ares-condicionados murmuravam, tanto e surdamente, quase sem conseguirem vencer o sol que derramava os seus raios fortes e a pique, exactamente naquela raia onde eu tinha a minha pequena secretária, atrás do Arsénio Cruz, que era já um decano como aqueles dois, que comigo tinham de semelhante, porque nunca eram sorteados naquelas chamadas com as proposições românticas de belas raparigas, que algumas vezes eu vira todas devidamente arranjadas e aprumadas em vestidos e mini-saias, que a muitos deixavam de língua fora e a padecerem de uma sede estranha atrás da braguilha.

No entanto, eu já me desfalecera há muito por não ver o meu nome cair na rifa. Não porque me preocupasse tanto, mas como um jovem virgem mundano desejava provar o concurso, sentir onde iniciava a mentira e terminava a verdade. Enquanto isso, me entretinha sobremaneira, ocupado com os relatos dos meus sempre reincidentes e ruidosos colegas, cada vez mais caprichosos a investirem em fatos novos e elegantes, a saírem com as raparigas, sobre as quais recaíam nomes e retratos dos seus dotes amorosos, nas festas dos colchões do Hotel Savoy, mesmo nas traseiras da redacção.

Um dia, pelo fim da tarde, o sol batia-me no rosto e todo transpirado tentava ganhar inspiração para debitar numa folha branca que tanto torturava o meu relato do dia, cujas primeiras dez laudas amarrotadas caíram no cesto de lixo. O chefe da reportagem, o Madeira, me olhava por cima do ombro e parecia adivinhar o meu estado de falência inspiratória, enquanto se caminhava para a hora do fecho da edição. Neste dia as rédeas das palavras estavam entregues ao colega Santos Mulenga, que investigava sobre a negligência do médico russo Vitali, o tal que castrara os testículos a Vua-vua. Eu ouvia Mulenga falar e pensava na edição desse dia, que esgotara, por causa dos contornos dessa estória macabra e melindrosa. A ambição de qualquer dos meus colegas era de trazer esse tipo de estórias macabras e outras que causavam rebuliço na cidade. Eu pensava na tragédia do Vua-vua recentemente acabado de desposar a sua segunda esposa. Devia ser um daqueles touros aniquilados impiedosamente por Vitali, supunha, quando o telefone retiniu e o Madeira me anunciou que tinha alguém lá em baixo a pretender me falar.

Deve ser que me tocou a rifa – disse cá eu, falando com os meus botões.

Enquanto eu descia calmamente as escadas do primeiro andar para a recepção, em baixo, primeiro pensei que finalmente me caíra o número, segundo que lá em baixo estaria presumivelmente um errante cirurgião Vitali, para tentar rebater algo que ficara de fora no seu direito a resposta. Não desejava encará-lo porque arrepiava as minhas sempre latentes aspirações taurinas.

No último degrau da recepção reconheci uma cabeleira morena, tez branca e cabelos curtos. Não era uma mulher que há muito eu esperava. Era o Alexsandr Prokopiev Popov, médico otorrino russo. Eu e o Alexsandr nunca nos conhecêramos antes. Alexsandr buscara o meu nome na ficha técnica do jornal e entrara imediatamente em contacto comigo. Pedira para falar comigo num lugar a sós, o que acedi. Fomos os dois naquele Renault cinzento pálido até ao belo e pitoresco Café Mexicana, na Ponta-Gêa. A família Vitali esteve no centro da nossa conversa. Esteve no centro da conversa a demasiado autoritária Ludmila, a esposa de Vitali, mais o seu filho Ivan, por aquelas alturas estudante-estagiário de Medicina. Visivelmente transtornado com a negligência de Vitali, que capara os testículos ao Vua-vua no lugar dos de um outro enfermo, me disse o Alexsandr:

Quando o médico Vitali está bêbado e tem uma emergência manda o Ivan e este opera os doentes moçambicanos, sem que esteja licenciado. O director do hospital está nas mãos dessa família. Tratam-se como compadres.”

Regressei horrorizado e escandalizado para a redacção. Dias depois Alexsandr reapareceu-me na redacção e me vinha buscar para um almoço, na sua bela casa, com paredes forradas de lamberia, no balnear bairro do Macúti. A mulher de Alexsandr, essa sim, era loira, esbelta, olhos azuis e penetrantes, prepara-nos uma refeição apetitosa.

Passaram-se vinte e cinco anos. Alexsandr há muito mudou-se para Maputo, junto à família. Nacionalizara-se moçambicano. Ainda ontem telefonou-me a minha amiga Marina, também loira, de olhos azuis:

… Morreu o Alexsandr…

… Alexsandr?… Qual Alexsandr? – titubeei eu.

O otorrino, aquele simpático e humanista, que viveu aí na Beira.”

O meu telemóvel fumegava, de tão quente que era aquela figura humanista, muito solidária, muito sorridente, cujo desaparecimento físico me deixa inconsolável. (Adelino Timóteo)

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here

dezesseis − oito =