A nova romaria para Sofala e mais do mesmo

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Maputo (Canlmoz) O primeiro-ministro, Carlos Agostinho de Rosário, aterrou em Sofala na passada segunda-feira para avaliar os estragos causados pelo ciclone “Eloise”. Mesmo antes da ida do primeiro-ministro a Sofala, das constatações preliminares feitas, os danos causados pelo “Eloise” são significativos, com quatro mortos no topo dos estragos. Grande parte da província de Sofala, incluindo parte significativa da cidade da Beira, estava alagada, até à passada segunda-feira.

Se é verdade que esta tempestade não trouxe desgraças que se comparem com os estragos feitos pelo “Idai”, o facto é que, ainda que o impacto tenha sido inferior, aprofundou as desgraças trazidas pelo “Idai”. E é aqui onde reside a questão central.

Depois de todos termos visto a ajuda alimentar e de outra espécie que foi canalizada para a Beira, o certo é que a maior parte da população nunca viu essa ajuda, o que equivale a dizer que, depois de terem perdido tudo,incluindo os seus familiares, com o “Idai”, os cidadãos tiveram de contar exclusivamente com as suas próprias forças e inteligência para se recomporem. Alguns nem conseguiram recompor-se e passaram a viver como indigentes, sem tecto nem comida, mas viram a chegar à Beira aviões e navios com ajuda suficiente para minorar o seu sofrimento.

Desde o primeiro dia do “Idai”, o que se sabe objectivamente é isto: houve ajuda financeira que foi canalizada, por via de uma conferência de investimento,que não chegou a ser nos termos previstos, devido àdesconfiança sobre corrupção. Mas, mesmo assim, foram assinados acordos de desembolso de 706 milhões de dólares, do 1,4 milhão de dólares que havia sido previsto.

Foi instituído o Gabinete de Reconstrução Pós-Ciclone “Idai”, dirigido por Francisco Pereira, que teve dotação orçamental para reconstruir a cidade da Beira. O ciclone destruiu a cidade da Beira em Março de 2019, e em Abril, foi instituído, por decreto do Conselho de Ministros, o Gabinete de Reconstrução Pós-Ciclone “Idai”, com sede na cidade da Beira.

O Gabinete de Reconstrução Pós-Ciclone “Idai” tem as seguintes atribuições: 1) preparação de metodologia da avaliação de perdas e danos, internacionalmente aceite, em consulta com os Ministérios e Instituições Centrais e órgão locais; 2) avaliação de perdas e danos em coordenação com os Ministério e Instituições Centrais e órgãos locais, parceiros de cooperação e sociedade civil;3) preparação do Programa de Reconstrução Pós-Ciclone “Idai”; 4) organização de eventos de mobilização de recursos; 5) elaboração de projectos com vista àimplementação do programa de reconstrução; 6) acompanhamento da contratação e gestão de contratos de empreitadas, fornecimento de bens e prestação de serviços para as acções de reconstrução; 7) elaboração e submissão do relatório de progresso das actividades; 8) contratação de auditoria anual independente e divulgaçãodo respectivo relatório.

Hoje, quando o mês de Janeiro de 2021 caminha para o fim, desconhece-se completamente o nível de operações do Gabinete de Reconstrução Pós-Ciclone “Idai” e também se desconhece qualquer relatório que tenha sido divulgado para o povo de Sofala sobre o dinheiro que o Gabinete de Reconstrução Pós-Ciclone “Idai” recebeu e sobre o que foi feito com esse dinheiro. Não há informação nenhuma. E nenhum dirigente do Estado foi à Beira aferir o grau de implementação do plano de reconstrução. No fundo, o que houve? Apenas uma plataforma para receber dinheiro, e, no minuto a seguir,apanharam aviões de volta para Maputo e deixaram a Beira sob escombros e com um escritório sem recursos,chamado Gabinete de Reconstrução Pós-Ciclone “Idai”.

Não é preciso nenhum trabalho aprofundado para se chegar à conclusão de que não há reconstrução nenhuma na cidade da Beira. As pessoas que perderam as suas casas continuam sem casas. O chamado subsídio para as famílias vulneráveis” é uma verdadeira miragem. Os que tinham negócios não receberam qualquer tipo de incentivo para reconstruir as suas vidas.

O chamado Banco Nacional de Investimento, a plataforma pública que devia ter sido usada para reanimar a economia beirense, não foi tido nem achadonesta operação. Na azáfama da recepção dos donativos internacionais, as eminências pardas idas de Maputo inundaram a Beira, em vestes de grandes trabalhadores. Mas parou o fluxo da ajuda e logo saíram da Beira e deixaram-na assim como estava, em escombros e sem qualquer plano da sua reconstrução, ainda que, no plano formal, tenha sido deixado o tal Gabinete de Reconstrução Pós-Ciclone “Idai”.

Veio o ciclone “Eloise”. As casas que não foram reconstruídas voltaram a ser atingidas. As vidas que não receberam do Estado qualquer incentivo de dignidade voltaram a ser vandalizadas. Na passada segunda-feira, o primeiro-ministro foi à cidade da Beira avaliar os estragos. Será uma nova romaria para lamentar a desgraça perante um povo a quem foi prometidareconstrução em 2019, mas a reconstrução nunca mais chegou.

Antes da sessão para debitar novas promessas, o primeiro-ministro devia levar para a cidade da Beira o relatório e a auditoria da ajuda recebida no âmbito do “Idai”, para que os beirenses ficassem a saber onde estão e para onde vão. É fundamental, em cultura democrática,a prestação de contas aos administrados, exigência que se torna curial quando, em nome dessas mesmas gentes, se recebe dinheiro em forma de ajuda.

É inaceitável que hoje, em Janeiro de 2021, ainda haja na Beira cidadãos sem lugar para dormir, porque a sua casa foi com o “Idai” e nunca mais foi reconstruída. Num paísem que todos os membros do Governo e os seus familiares andam em viaturas voluptuosas e cortam o cabelo e a barba no estrangeiro, é insultuoso que haja moçambicanos sem um ligar digno para dormir. A conversa de que há exiguidade de recursos é peremptoriamente desmentida pelo estilo de vida que os membros do Governo e os seus familiares levam.

Antes de o primeiro-ministro ir à Beira, devia fazer um exame de consciência juntamente com o Governo sobre se qualquer possibilidade de serem levados a sério(inclusive até por menores de idade, que têm capacidade mínima de inteligência) depois do fiasco da reconstrução após o “Idai”. E é muito provável que seja aplicada às vítimas do “Eloise” a mesma fórmula enganosa que foi aplicada às vítimas do “Idai”.

Em tudo isto, o que se revela é um desleixo total na governação do país e do seu povo. Vai-se fazendo as coisas como se os cidadãos nem sequer tenhamcapacidade de raciocinar e capacidade de verem que estão a ser vítimas de uma burla qualificada.

Se as desgraças que acontecem ao povo moçambicano não são suficientes para sermos sérios na redução dos efeitos nefastos dessas desgraças, então estamos mesmo muito perdidos. (Canal de Moçambique)

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