O professor David

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Beira (Canalmoz) – Cerca da uma da tarde víamo-lo numa motocicleta, modelo antigo, que o transportava desde a casa dos Irmãos Maristas, nas Palmeiras 2, até à Escola Samora Machel (ex-Pêro de Anaia), no Esturro. A sua presença era estranha a começar pela motocicleta. Naqueles tempos, meados dos anos 80, quase não havia meio de transporte na cidade. O grosso dos automóveis eram carros militares, muitos deles grandes e espalhafatosos. Ao lado dos monstruosos veículos russos, a presença daquela motocicleta com que ele atravessava a cidade ao lado mostrava-se quase como de uma mosca assustada. O seu condutor era um mexicano. Na casa dos sessenta anos, de ar jovem, vestido de traje simples, sabia estar entre os estudantes jovens e adolescentes, pelos corredores e recinto do liceu. De que mais me lembro era de vê-lo de sua boina cinzenta, com um botão tipo rebite, que escondia a pala. Usava camurças, calças levezinhas, quase ao estilo boca-de-sino, no guarda cinto um estojo de óculos de sol e de ver ao longe, lhe faziam a presença. Por alturas de verão costumava usar camisas de mangas curtas, no inverno um jacket de gola curta. Na sala de aulas chamávamo-lo professor David. Era o nosso respeitado e simpático professor de inglês.

O professor David é uma das ilustres figuras que me marcou, pois que nos ensinava inglês com música. Tinha um reprodutor de cassetes clãssico, um BIGSTON, de dimensões de um pão-de-forma, mas de uns dez sentimentos de altura, com teclados nos bordos da parte estreita, em cima.

Recordo-me dele como se fosse hoje. Da sua passada lenta, do seu falar calmo e, sobretudo, do seu método e da sua boa disposição, para nos ensinar inglês.

Vivíamos a revolução socialista no país, a qual renegávamo-la, dedicando o nosso tempo a ouvirmos as músicas das estações de rádio estrangeiras como a Rádio One, Rádio Three, a Cape Town Rádio, a Rádio Five e a Metro Rádio. Os reprodutores de cassetes eram quase inexistentes, mesmo um luxo. A compra de um rádio nacional Xirico estava sujeita à candidatura e a um escrutínio da parte das autoridades, que indeferiam os suspeitos de escutarem A Voz da Quizumba. O nepotismo favorecia na procura. Como a concorrência era grande, a sua aquisição ou disponibilidade tardava um ano, até mesmo dois, ou nunca se obtinha a resposta. Com a escassez de pilhas, para captarmos essas emissoras, ao longo do dia púnhamos as pilhas a aquecerem-se ao sol, debaixo delas umas partículas de sal, para ouvirmos a milagrosa voz do locutor sul-africano, John Tshabalala. As referidas rádios eram famosas por reproduzirem música pop, algum jazz, algum blue e algum funk. Era com elas que nos familiarizávamos dos novos LP’s, que se editavam pelo ocidente, dos astros da música, como os The Beatles, Michael Jackson, Elton John, Bob Dylan, Madonna, Stevie Wonder, Lionel Richie e os seu Os Comodores, Kool and the Gang, Bruce Springsteen e Bon Jovi. Os mais perspicazes e astutos DJ’s da malta gravavam desde essas rádios as novidades musicais, por vezes marcadas pelas interferências dos comentários dos locutores, que ofereciam relatos biográficos dos músicos, muito despropositados para as festas (bangas), não fossem os mesmos hábeis DJ’sinterromperem-nos muito antes de mancharem a festa ou mesmo gravarem uma outra música desde esse ponto da fita magnética. No bairro, era na casa do Joãozinho Matibe onde nos entretínhamos a zappear as emissoras referidas, a satisfazer a nossa fome de música ocidental, a nossa sede de cultura geral. Foi o Joãozinho que descobriu-nos, através da Rádio Three, o We are the world. Enquanto uns de nós subíamos no telhado para acertarmos a antena, Joãozinho Matibe dava gosto ao sintonizador, à procura da frequência daquelas rádios, por vezes difíceis de captar. Joãozinho fazia o mesmo que hoje se faz com os smart phones, para a nossa alegria geral. Não excluo o meu primo Rui Mazinguire, recém-regressado de Nacala, também um hábil e dotado em pilotar o sintonizador. Guardo com nostalgia a recordação de momentos mágicos e misteriosos passados ao lado desses dois DJ’s de rádio, que transformavam a monotonia das nossas férias escolares em uma coisa mágica.

Tudo isso passou-se antes da chegada do professor David. Era numa fase em que adolescentes e jovens da minha geração amavam a mais requintada música. Professor David introduziu uma diferença: o gravador e as letras dos nossos mais afamados ídolos. Ao longo do ano 1987 as aulas de inglês se transformaram no nosso refúgio, para as carências com que se nos deparávamos. Foi assim que me interessei pelo inglês, porque no plano temático do professor David, para os temas que se mostrassem difíceis, a motivação estava na música, que servia de um aliciante à sua prática.

Professor David tinha um bom ouvido musical e parte do meu inglês instrumental deve-se a ele. Deve-se àquele BIGSTON parte do meu interesse em captar mensagens de ritmos em língua inglesa. Por vezes sonho numa aula de inglês leccionada pelo professor David, junto com os meus colegas de então, Richard, Titos Johnson, Victor Tesoura, Papadel, Gito Cuene, Francisco Alberto, Teresa (Nina) a cantarmos em coro naquela sala do primeiro andar, Turma G, aquele Imagine, de John Lennon, aquela La Isla Bonita, de Madonna, I Rather Be (If I Could), da dupla Simon & Garfunkel. Jaime Bessa e Issa Ibrahimo deverão recordar-se com nostalgia daqueles tempos em que deixávamos a escola às 19 horas e partíamos a pé à Macurungo, lembrando alegremente dessas lições de inglês com o professor David, quando os machimbombos da linha 4/A vinham da baixa totalmente lotados ou entupidos de passageiros.

Anos de vazio existencial, de chateza do viver (a guerra fazia cerco à cidade, tal como a fome e a carência de vária ordem), superados graças às aulas do professor David e os locutores de rádio, que representaram, para nós, no nosso imaginário, um grande exercício de evasão à realidade. Não importava, pois abstraímos ouvindo um e outro cantar All night long, de Richie, que nos transmitia uma felicidade eterna. Cantávamos na rua como os jovens discípulos de Langston Hughes, que faziam florir as baladas de Harlem, oh let it be.

Passaram mais de 30 anos e o professor David me resiste na memória, na encruzilhada e entrosamento com a nossa forma de vida na altura. Cruzávamo-nos depois na Paróquia Sagrado Coração de Jesus, no Macúti, onde eu era um cliente assíduo da palavra de Deus. Mas esta é outra estória.

Professor David partira subitamente um ou dois anos depois. Nunca mais tive notícias dele. De toda a forma, vive em mim, como os DJs que iluminavam os meus tenros anos de adolescência e juventude. (Adelino Timóteo)

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