Carlitos, o boémio

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Beira (Canalmoz) Depois de vinte anos de ausência de Moçambique, regressei ao país, consumido por um misto de saudades, também subordinado a uma avidez de rever o meu passado que cá deixara por estas terras. Desembarquei no Aeroporto Internacional da Beira numa manhã chuvosa, que prenunciava a bênção da minha chegada. Tomei um táxi e parti directamente ao bairro da minha nascença. Chovia a cântaros ainda, quando deixei as malas na Pensão Mar & Sol e saí à procura do Carlitos, meu amigo de infância. Era o Carlitos o meu mais chegado amigo, com o qual aprendi os lazeres todos, como os jogos de berlindes, a bola e os carrinhos de rolamentos e de lata. Vivia ele aí no Miquejo do Macúti, numa casa de caniço e cobertura de plástico. Foi ele que me iniciou nos prazeres das festas do colchão. Apresentou-me a uma prostituta que encontrei deitada no leito, com os pés ao alto. Comia uma maçã.

“Vem meu filho. Te ensinarei o melhor prazer da vida”, espicaçou-me ela, com ternura.

Durante muitos anos não tivemos nenhuma comunicação. Em Lisboa, para onde eu me mudara, chegavam-me raras informações, por interpostos amigos e terceiros, que Carlitos se tornara numa grande vedeta de música, que tocava pelas noites, convertido numa estrela incrivelmente vagabunda, disputada entre os gerentes do Moulin Rouge, da Gruta, do Calhambeque e do Solar das Andorinhas. Também soube que, paradoxalmente, Carlitos sagrara-se campeão de futebol, a defender as cores do Têxtil do Púnguè. De bracelete no braço direito era o capitão da equipa. O que era um tanto ou quanto estranho. Aquele Carlitos que emparceirara comigo nunca fora campeão de coisa nenhuma, de absolutamente nada ligado ao futebol.

Carlitos com quem eu escolei, se alguma vez fora campeão, o seria na vida boémia, em farras, na vida azarosa e errante que levava desde a mocidade. Era na mocidade já um galante rapagão, de falas doces e voz maviosa, cuja presença a muito instigava às donzelas. No limiar da juventude dava um ar de “hippie” e era um inveterado consumidor de maconha, a qual reincidia a consumir, embora sob o olhar reprovador do meu olhar contrariado e reprovador. Insistiram-me que nos primórdios da sua carreira, lá para 1973, o Belenenses obtivera-o num passe, o que o levara às terras lusas, para aquilo que fora um golpe de sorte, que ele, infelizmente, não soubera segurar. À chegada à Lisboa, Carlitos encontrara a vida que mais prezava e o Belenenses consequentemente viria a prescindir-lhe.

Carlitos tinha algo que me convertera no seu ídolo: era como ele atraía as damas nos bailes do Ferroviário da Baixa, ou lá para o Ferroviário da Manga. Quando frequentávamos os bailes Carlitos era uma tentadora paixão das raparigas, que o disputavam. Já por algumas vezes, nesses bailes, o vi jogando ao gato e rato com elas, pois que os amores de Carlitos eram furtivos e duravam apenas uma noite, ou mesmo umas poucas horas. Talvez uma fracção de segundos, quando ele as convencia a manterem intimidade na casa de banho, em pleno fervor do baile, com os aflitos convivas enfilados à porta, lá fora, impacientes com a demora, enquanto ele tardava a despega. Creio que por estas e outras façanhas me tornei o seu ídolo, pois ele montava cenários dos seus e saía ileso, contrariamente a muitos que, tentando lhe seguir, se davam na polícia ou a chafurdar com o focinho na lama. Não fora exactamente assim, mas, em Lisboa, Carlitos encontrara um espaço fértil à vida há muito devotada. Tanto que gazetava aos treinos e aos jogos, para diferir uma interminável lista de suas conquistas femininas, numa pensão que o clube alugara na Avenida Alexandre Herculano, próxima ao Elefante Branco, o mais afamado clube de alterne alfacinha, que ele frequentava e onde passara a delirar pelas musas algarvias e minhotas, que cria viessem a lhe servir de amuleto para ser alinhado no “time” principal. Embora os seus dotes e qualidades tivessem sido confirmados, por castigo, o treinador dispensou-o e Carlitos encaixotara-o, para o solo pátrio.

“Não, esse não é o Carlitos com o qual eu me amigara na infância”, atalhei com toda a certeza absoluta na voz.

“Me diz como ele é”, desafiou-me o gerente da casa do Moulin Rouge. Eu olhava-o incrédulo, parado no umbral da porta.

“Era baixinho, tez escura e corpo atlético, pés recurvos como alicate”, expliquei-lhe.

“Então é o mesmo Carlitos de que falamos. Esse é cantor e nunca jogou futebol. A sua habilidade é para o jogo de raparigas. Finta-as e dribla-as muito bem. Também marcou muitos golos, no melhor que ele sabe fazer”, afiançou-me o gerente com uma voz embargada na garganta. Era das noites mal dormidas.

“Como é que é? Não compreendes como alguém que não joga futebol pode ser melhor marcador?”, afirmou o gerente, não sem deixar de desfiar o invejável palmarés do meu amigo: “Tem damas por tudo que é canto: na Manga, no Aeroporto, em Mafambisse. Não lhe falo dos Pioneiros e Muchatazina, nem de Chipangara, onde ele prefere primar pela falta de comparência, de tão renhida e campal que é a batalha por seu amor”.

Depois de tanta nebulosa, desisti de procurar por Carlitos. Consegui um emprego numa óenegê e fui trabalhar para a Guro, onde no passado a minha família teve uma grande fazenda. Em Guro trabalhava na desminagem e na reabilitação de infra-estruturas destruídas pela guerra de dezasseis anos. O contrato era impecável e pagavam-me um balúrdio, pelo que tive que dilatar a permanência por dois anos. Telefonei à minha mulher da altura, mãe dos meus três únicos filhos, a comunicar-lhe que demoraria pelos trópicos e regressaria com uma pipa de dinheiro, para resolver meus problemas em Lisboa. Tinha uma hipoteca a resolver com o banco e as contas do dia-a-dia a saldar, o que me ficava pelos tímpanos, pois que diariamente me sujeitava a censuras da minha mulher:

“Vê se arranjas melhor emprego. Esquece isso de viver de sonho, de poesia, porque isso não é nada de gente séria, que tem uma família por sustentar!” – assim ela me disse, a poucos minutos do embarque.

Eu não estava nem aí. Vinha à África para lamber algumas feridas, alguma dor, daquele 7 de Setembro de 1974, que me forçara a apartar dela. No Guro ainda reencontrei um velho empregado meu, que me levou a visitar a fazenda. Chamava-se Fabião e conhecia da nossa vida dividida entre Guro e a Beira. Foi esse que me acudiu as velhas lembranças. Me disse, naquela sua voz meã, muito afável:

“Menino, que bom que regressaste depois de longos anos”.

“Menino eu? Já tenho filhos e cabelos brancos entre os tomates.”

“No serviço de quintal menino é sempre menino, até à velhice; patrão é patrão até morrer.”

“Fabião, não me venha com essa.”

“É verdade. Não há como recusar. A meninice assim como a idiotice são um posto.”

“Por falares em menino, recorda-te do menino Carlitos?”

“Claro que me recordo. Depois que o menino foi para a metrópole, Carlitos deixou de estudar. Como sabe, estudos não era com ele. Carlitos chegava à escola por uma porta e fugia por outra. Caçava passarinhos ao tempo das lições. Cresceu. Veio a operação produção e, como não tivesse emprego, inventou um ofício: músico, tocador de congas. Deste modo escapou à purga e se fez músico. Pouco a pouco aprendeu a tocar viola, até que se consagrou. Foi viola solo do Conjunto Oceana, depois tocou nos Interrogados 77, depois passou a tocar nos Camponeses da Munhava. No cume da sua carreira contrataram-no para Os Tambores de Sofala”, narrou o Fabião.

“Disseram-me que ele se tornou num belíssimo jogador de futebol”, atalhei eu.

“Eram dois Carlitos famosos. As pessoas sempre os confundiram. Um era Carlitos, o jogador. Outro, o músico. Embora houvesse confusão, quando o jogador morreu, quiseram que assim ficasse: Carlitos, o jogador, para confundir tudo e todos, para preencher o vazio deixado por um dos maiores campeões, também para honrar aquele que foi um dos maiores conquistadores da plateia feminina, enquanto dançarino e músico.”

“Mas para dizeres ‘foi’ terá ele morrido?” – perguntei-o, ao que Fabião esclareceu:

“Carlitos, de grande jogador de damas, acabou chifrado. Nos últimos anos tocava numa casa de pasto privada, numa cave chamada Bangladesh, no centro da cidade. Desafortunadamente, encontraram-no morto neste que foi o seu bar, com um guiso atado ao pescoço e pendendo desde o tecto da sala”, contou-me o Fabião.

De repente, dois fios de lágrimas soltaram-se do meu rosto. Enquanto isso, Fabião continuava a desfiar a estória. Rezava que Carlitos andava em esbórnias. Dormia no próprio bar. A mulher desesperada arranjara um amante, que passara a financiar-lhe pois que o dinheiro lhe escasseava. Numa noite entrada, inadvertidamente, Carlitos fizera-se a casa. Abriu lenta e sorrateiramente a porta do seu quarto e encontrou a mulher a fazer amor com rapagão belo, um Adónis, que desempenhava como um touro. Não disse nada e tornou a fechá-la. Largou a correr ao bar, donde nunca mais voltou a sair. Encontraram-no um mês depois, o corpo jazia apodrecido. (Adelino Timóteo)

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