Não há paz nem liberdade

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Beira (Canalmoz) – No dia 13 de Maio do ano em curso, o Presidente da República, Filipe Nyusi, disse, num encontro com o corpo diplomático, que Moçambique não consegue, sozinho, erradicar o terrorismo. O terrorismo mesmo que actue num determinado local, é um fenómeno global cuja propagação não respeita fronteiras, de um país, de uma região ou continente por isso, o seu combate sendo da responsabilidade primária de cada Estado, directamente, afectado, exige esforços coordenados e cooperativos de todos os países. O Presdente Filipe Nyusi disse mais adiante que não são palavras e declarações à imprensa que determinam a aceitação de apoios em forma de simples intenções. Nyusi prosseguiu dizendo que não precisamos de meninos de recados sobre necessidades de apoios para combater o terrorismo em Cabo Delgado. Acreditamos que esse modo de agir não seja somente pelo orgulho da suposta soberania nacional. Esta estratégia visa destruir o país para colher benefícios ilegais a granel, no meio de confusão e mortes.

Estas declarações vindas de quem deve comandar, ao mais alto nível, as Forças de Defesa e Segurança, são graves, demonstram ausência de estratégia e falta de clareza. Lendo bem os trechos que aqui transcrevemos, fica-se com a ideia de que o país está à deriva. O Presidente não diz o que pretende para combater o terrorismo. A menção a meninos de recadosrevela de que o combate sério ao terrorismo está longe. Quem são os meninos de recados? – Somos nós que gritamos pelo fim da guerra terrorista. Que nos sentimos humilhados pela contratação de mercenários para defender a nossa pátria. São todos os que se sentem revoltados pelo desinvestimento que os governos da Frelimo vêm fazendo no exército, deixando o país à mercê do terrorismo e contrabando.

Os que deixam outros moçambicanos serem mortos e decapitados são os mesmos que tomaram a decisão de não investir no exército e orientaram a sua especial atenção no fortalecimento da polícia para que reprima, com vigor, os oponentes do partido no poder e, assim, vencerem as eleições sem nenhuma oposição expressiva. Hoje orgulham-se de terem feito de tal modo que lhes permite fazer proezas. A fraqueza que o exército demonstra, quando se confronta com os terroristas, é resultado do desinvestimento que foi sendo efectuado desde a entrada do sistema multipartidário no país. Já tivemos um exército forte e corajoso que combateu, com bravura, as forças rodesianas, um exército formal, bem treinado e equipado. Agora, terroristas dão shows às nossas tropas – atacam, ocupam vilas e aldeias, raptam populações, destroem infraestruturas, matam e decapitam as suas vítimas. Os terroristas, à maneira dos raptores dos agentes económicos nos centros urbanos, já exigem resgate, para sua libertação, devido à impunidade de como decorrem os raptos. Aperceberam-se, também, de que o resgate é um chorudo negócio tolerado pelo governo do dia.

Como o acesso ao poder começou a ser por via de eleições, que deveriam ser livres e transparentes, os malandros para manterem o poder de Estado sob o seu controle, viram na necessidade urgente de preparar uma polícia forte, bem armada e, altamente, repressiva em detrimento do exército nacional que foi deixando definhar nos quartéis. Ficaria demasiado ridículo meter o exército nas assembleias de voto, transportar urnas para os comités locais do partido governamental, como tem sido prática corrente, mas a polícia pode fazê-lo à vontade, bastando, para tal, alegar a reposição da ordem pública. Agindo desse modo, os larápios continuam, imunes, no poleiro. As eleições viraram uma simples formalidade para conferir crédito a um regime gangsterizado e deixou de ser um mecanismo democrático para o povo expressar a sua vontade como uma nação.

No nosso país, os resultados eleitorais não reflectem, de modo algum, a vontade popular expressa nas urnas, devido ao malabarismo que o partido no poder tem vindo a encetar contra a democracia, que pressupõe alternância ao poder através de eleições livres e transparentes. As vitórias retumbantes, sufocantes e convincentes, como eles próprios as designam, são uma farsa porque o enchimento de urnas com votos falsos enquanto a polícia prende os opositores não passam de uma grande burla.

A ganância pelo poder para, através deste, aceder ao dinheiro está a destruir o país. Assim, o país vai de conflito em conflito, de guerra em guerra, desde que chegámos à independência, a 25 de Junho de 1975. O povo abraçou a luta de libertação nacional para viver em paz e liberdade, porém, isso não passou de uma ilusão. Enquanto o país continuar sob a gestão de caloteiros e assassinos, não passaremos de pobres que choram quando faz sol ou chuva.

A independência não trouxe a liberdade nem paz. Em Moçambique, pensar diferente é virar alvo dos esquadrões da morte a soldo de um regime corrupto e incompetente que nos retirou o direito e a liberdade de sermos diferentes. Os problemas socioeconómicos cresceram e as soluções são cada vez mais escassas. Os recursos naturais como a madeira, minerais e hidrocarbonetos foram colocados ao serviço das elites. Os mais velhos até dizem que os actuais governantes chegam a ser piores que o colono. As evidências falam mais alto que todos os discursos juntos. Os libertadores de ontem viraram vampiros de hoje, parecendo que somos um povo condenado à fatalidade.

A justiça está subjugada ao poder político. Assuntos importantes que deveriam ser escrutinados pelo Parlamento, passam-lhe por cima, como foi o caso das dívidas ocultas. Apercebeu-se do endividamento como qualquer cidadão: através dos órgãos de comunicação social, o que é mau paraAssembleia da República devido à sua ineficiência e falta de visão. Não foi por acaso que a equipa de Guebuza fez a contratação das dívidas ocultas sem ter em conta a obrigação de passar pelo parlamento devido à sua própria insignificância e isso se vai repetir mais vezes.

A aprovação das mordomias dos funcionários e agentes parlamentares são um sinal de que, como país e nação, somos órfãos de governo, órfãos do poder legislativo e órfãos dos tribunais que jogam favorecendo os poderosos e endinheirados. Falamos de endinheirados e não de ricos porque o rico é quem produz riqueza. O endinheirado é aquele que apanhou dinheiro, por algum motivo. Não deixou cair uma única gota de suor que justifique o que exibe possuir. Os meninos dos ricos que rasgam a nossa vista com carros de luxo, escoltados por polícias pagos pelos impostos dos cidadãos.

Os implicados no escândalo financeiro de magnitude ímpar continuam na mó de cima dos destinos do país e, apesar de todas as evidências, a Procuradoria-geral da República, por conveniência política, desconsegue ver uma montanha. Lamentamos pela demora da chegada de mudanças que venham alterar o cenário sombrio que vivemos. O dia de mudanças continua uma incógnita enquanto o país for dirigido por esta estirpe de gente.

A nossa esperança de ver a vida melhorar está a esgotar. O que vai ajudar a melhorar vida do povo não são os recursos de que a nossa terra dispõe, mas é o homem que faz a diferença. É o homem que produz milagres e desenvolve o país, por isso, não vale a pena esfregar as mãos pelo gás porque tudo vai ser como o que está a acontecer com tantos outros recursos. Tudo está dividido entre as elites do partido no poder. O povo é só chamado para bater palmas enquanto eles comem à moda dos antigos egípcios: encher o bandulho e voltar, mais animado ainda, à mesa do banquete. Estudemos a História!

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