O verdadeiro problema!

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Maputo (Canalmoz) – Moçambique é um dos poucos países do Mundo que tem onze províncias em que, em cada uma delas, falam as suas próprias línguas, que nada têm a ver com as línguas das outras províncias. Cada circunscrição provincial tem o seu padrão cultural. Não existe uma cultura moçambicana. Existem várias culturas moçambicanas, que, sem relação umas com as outras, coabitam sem qualquer registo assinalável de superioridade de uns perante os outros.

Em Moçambique, não existe uma língua moçambicana que seja nacional. Estamos a assumir aqui “nacional” numa dupla dimensão. Na primeira dimensão de “nacional”, como sendo indígena cá da terra, e, na segunda dimensão de “nacional”, como sendo de todos os lugares dentro das fronteiras moçambicanas. A língua portuguesa não é propriamente nacional. Foi nacionalizada e tornada oficial porque foi imposta aos moçambicanos no processo de colonização. Dá para imaginar a dificuldade que seria, para a administração colonial, lidar com dezasseis línguas, correspondentes a igual número de nações, dentro de uma nação.

Ora, qualquer conversa com matriz incendiária tribal num país com características difíceis como Moçambique é de uma irresponsabilidade descomunal, porque o coeficiente dessa conversa pode acender paixões que nunca existiram, e ninguém estaria em condições de pagar a factura dos custos do seu controle.

Não se pode incitar a um debate de cariz tribal em termos de colocar uns contra os outros num país com as características de fácil combustão como é Moçambique. Já devíamos agradecer a Deus que, tendo estas características acima descritas, o povo moçambicano sempre conseguiu manter-se numa unidade nacional real, em que uns nada têm contra os outros, têm, sim, em comum, um coração do tamanho de Moçambique.

É isso mesmo. Moçambique subsiste como país sem desembocar em guerras tribais não por esses “slogans” vazios de unidade nacional, mas apenas graças à dimensão pacífica, ainda por estudar, do coração e mente dos moçambicanos.

Há países com dimensões muito menores que Moçambique e com um quarto do total da população moçambicana, que têm apenas três ou quatro tribos, mas não conseguiram passar no teste da concórdia e da paz. Moçambique teve as suas guerras, mas nunca foram de dimensão tribal, ainda que já houvesse todas as condições para se mergulhar numa guerra dessas. Isto é uma dádiva ainda por estudar.

Ora, ter o general Chipande a incendiar o país impunemente, numa guerra de comadres, não é só um acto de irresponsabilidade. É, acima de tudo, um enorme acto de má-fé, com fins banditescos.

Os moçambicanos, enquanto povo, não têm fracturas tribais. Nunca tiveram no tribalismo a razão da sua pobreza. E é até insultuoso dizer que o país estás nas condições em que está por causa do tribalismo.

É preciso compreender que o tribalismo, nos termos em que é colocado, é uma forma de organização baseada na discriminação ou promoção em função do grupo tribal, e em que a tribo dominante (não tem a ver com número, mas com o exercício do poder material) se impõe sobre as demais em todas as esferas da sociedade, sob forma de organização política.

Ora, não nos parece que seja este o problema de Moçambique. O problema de Moçambique não é o tribalismo nesses termos. O problema de Moçambique é o partido Frelimo, que tem a sua génese e forma de reprodução de poder no eixo changana-maconde. Isso é um facto histórico e cientificamente teorizado.

Os donos dos recursos de Moçambique são os cidadãos do partido Frelimo na aliança Sul-macondes. Isso não é necessariamente tribalismo. É uma associação para delinquir, que assaltou o Estado sem qualquer agenda, até para com as suas próprias tribos. É um grupo de larápios que se move no dinheiro, sem qualquer tipo de projecto.

Uma manifestação tribal genuína teria como resultado imediato que as zonas de onde essas duas tribos são oriundas fossem mais desenvolvidas do que as zonas das restantes tribos do país. A prova de que estamos a lidar com gente reles é que não foram capazes de criar condições para os lugares que exaltam como sendo a sua “pátria tribal”. Os níveis de pobreza em Gaza, Inhambane e Maputo são terríveis. E nesses lugares vivem as tribos do Sul. Em Gaza, a uns quilómetros da capital Maputo e berço dos heróis do Sul, a população come raízes e bichos, como se estivesse na idade das cavernas.

Em Cabo Delgado, de onde vem a tribo que hoje está no poder, há um general da corte a enterrar os seus próprios irmãos vivos, só porque estes também querem ter acesso a pedras preciosas que esse general explora com a tribo inglesa. Não são capazes nem de dar água limpa para beber à própria gente. Em pleno século XXI, há gente a beber águas com elefantes e macacos. Não há escolas nem paracetamol para uma simples dor de cabeça, que ali se tornou doença mortífera.

O mesmo diríamos para o centro. Os senas, ndaus e nhungues que integram a estrutura de decisão do partido Frelimo apenas transformaram as suas zonas de origem em locais de extracção de recursos (madeira, ouro e carvão), estando eles empoleirados em Maputo com os seus amigos da corte. O povo está na miséria. Alguém pode achar que isto é alguma forma de tribalismo? Não. É crime de pilhagem. O tribalismo é ideológico. Não há nenhuma ideologia na pilhagem.

Aquele que levanta a voz, hoje, para gritar “tribalismo” é sócio dos outros nos diferentes empreendimentos que foram edificados com base na pilhagem dos recursos do país. É por isso que o moçambicano comum não cai na conversa de alimentar o ódio contra esta ou aquela tribo. Está identificado que o problema não é o da tribo. É o da organização da pilhagem de que todos eles fazem parte. A má divisão do espólio da pilhagem ou a rotação irregular da vez dos diferentes bandos é que alimenta essas paixões que agora são exteriorizadas como tendo alguma ideologia tribal.

Não se trata de tribalismo coisa nenhuma. Não é esse o problema. O problema é o partido Frelimo, que se tornou numa organização dos inimigos da pátria, esses que se congregam para pilhar o país e o futuro dos moçambicanos. Falar de tribalismo agora é só uma pedra de arremesso para incendiar a má divisão do espólio do roubo.

Os moçambicanos, esses, sim, são vítimas destes desavergonhados, que nunca tiveram compromisso com o país nem com o povo e querem lançar o povo numa luta fratricida, para que continuem a pilhar o país, como está a acontecer, neste momento, em Cabo Delgado. É contra estes bandidos que temos de nos defender. O que nos une é o nosso coração enorme e o dano que sofremos todos por igual nas mãos destes oportunistas. (Canal de Moçambique)

 

 

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